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Portugal

Crónicas da América Central

 

  • As Pedras

    À medida que descemos o México, que nos desviamos na Guatemala e nos dissolvemos nos sabores ternos e educados da América Central, desvelam-se perante os nossos olhos História e civilizações inimagináveis.

    São Pedras não tanto orgulhosas mas sobretudo resilientes. Deixaram-se envolver pela Selva onde puderam ignorar o sangue da história recente destas nações cujas fronteiras e cujo povo sofreram em demasia a interferência da Europa, dos Estados Unidos, do Imperialismo e do Comunismo.

    Á medida que são obrigadas pela nossa imparável curiosidade  a emergir novamente à luz do sol, prometem, cada uma delas, o muito que ainda nos falta descobrir. No seu perseverante silêncio há uma digna e majestosa maneira de apontar aos colonizadores europeus as nossas culpas.

    - E vocês, Portugueses e Espanhóis, o que pensam hoje da forma como correu a invasão das Américas ? – pergunta-me um jovem uruguaio junto às ruínas de Tulum – Porque tiveram de atravessar o mar e vir aqui matar gente e cometer tantos crimes só para terem mais ouro e terra ?

    É uma pergunta difícil. Primeiro, porque como acontece com todos os povos, só nos ensinam na escola uma parte da História. Depois, porque as “glórias” passadas estão demasiado assimiladas na nossa identidade para ser fácil discuti-las facilmente. Terceiro, porque o ideal de uma América pré-colonial em perfeita comunhão com a natureza e beneficiando de uma Paz próspera entre todas as tribos também não é verdade.

    As diferentes civilizações Mayas, Aztecas, Incas, combatiam-se entre si ferozmente e  foi a capacidade dos espanhóis de manejar tais divisões, construindo e anulando alianças com diferentes tribos locais, que lhes permitiu com tão poucos homens conquistar a quase totalidade do continente.

    Nós portugueses temos tendência a isolar-nos da chacina que consistiu esta conquista. Mas penso que não o podemos fazer. Duvido que fossemos colonizadores mais” bonzinhos” que os outros. Duvido que a filosofia, a cultura e objectivos do colono português fossem em essência distintas das dos seus vizinhos  espanhóis.

    Na verdade, “nacionalizar” as atrocidades cometidas pela poderosa civilização ocidental é uma forma de as tornar menores, toleráveis e portanto passíveis de com elas convivermos sem nos questionarmos seriamente sobre o Passado e o Futuro.

    A questão do jovem uruguaio é menos profunda do que a escuto. Para ele há um mundo maravilhoso anterior à chegada de Cortez, um mundo que foi e segue sendo destruído a ferro e fogo. Não me cabe a mim destruir esse idealismo juvenil que move o seu trabalho. Gustavo, assim se chama, dedica-se a projectos de eco-turismo no Uruguai e no México). Mas é mais que por respeito que não lhe contrario o sonho: é porque tem algo de verdade. Os governos e as entidades internacionais já constataram que o pouco do património natural da América Central que não foi já destruído ou consumido são os territórios que,  por motivos sobretudo políticos e não ecológicos, foram atribuídos às tribos indígenas para gestão autónoma.

    Mas voltemos á pergunta original. Se aprofundarmos ao nosso raciocínio, percebemos que o homem ocidental não é nem foi diferente dos restantes. Apenas mais poderoso. A pergunta não deve ser dirigida a Portugueses e Espanhóis mas ao lado mais negro da humanidade. Um lado incontornável, ambiciosamente destrutivo e infelizmente sempre presente.

    Aos Portugueses e Espanhóis cabe a vergonha de muito do que se passou neste continente mas, também, algum orgulho do que temos em comum desde então. De alguma forma também o Brasil conquistou Portugal, a América a  Hispania. Essa foi a minha resposta à pergunta original, isso e o facto de como percebi que estas pedras nos derrotam.

    Afinal, o que as pedras hoje nos contam na sua beleza e resiliência é uma certeza de vitória.

    Não é só a forma como as tribos Mayas se limitaram a renomear divindades ancestrais por “cortesia” aos missionários e as adoram agora em Igrejas inteiras dedicadas a rituais nitidamente pagãos em que as escadarias barrocas replicam a função das dos templos antigos e o  sangue de animais substitui os sacrifícios humanos. Não é só a forma como ainda se vestem e cantam e lêem a terra, as estrelas e o tempo com um rigor até hoje insuperável.. Como falam os seus inúmeros dialectos e seguem cultivando o milho e o cacau.

    O que as pedras nos dizem em Tikal e Chechenitza e Uxamal ou Tulum, é que a grandiosidade do seu povo não se apagou com todas as armas. Muitas vezes abrigadas apenas pela selva, esse é o seu poderoso testemunho, um testemunho construído  também intencionalmente pelos seus antepassados para  os nossos olhos de hoje: “Tu que nos visitas no futuro, submete-te ao nosso poder, à beleza das nossas obras, à evidência daquilo de que somos capazes”

    Quando escalamos estas pedras, a afirmação de uma civilização para além da sua própria história é inequívoca. É um legado que devolve identidade e futuro ao seu povo.

    É nesta afirmação que reside o sublime da beleza destas Pedras, o seu imenso poder.  Imóveis, oferecem ao jovem Uruguaio e a todos os seus irmão centro e sul-americanos uma identidade independente da dos seus colonizadores, uma história com tantos séculos e dignidade como a dos seus invasores, “invasores” que como eu perante elas se rendem diariamente.

    E foi sentir esse Poder, foi essa rendição absoluta que a todos prescrevo, que as tornou principais nesta volta pelo mundo.

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    Do Centro da Terra

    São cinco quilómetros de uma subida íngreme. Prieiro floresta e depois a aridez das cinzas. Ao lado, a paisagem, quanto mais subimos, mais se amplia. Vemos Antigua la em baixo, o vulcão a que chamam Fogo e o outro a que chamam Agua. São apenas os mais próximos, já que são inúmeros e se prolongam até ao mar pacifico que também vislumbramos.

    O caminho é pedregoso e a cinza, como a areia da praia, cansa cada passo. A paisagem que vos descrevo é de um verde vivo, invade-me os olhos quando paro de caminhar, mas fora isso, confesso que é o cinzento do chão quente que me absorve a atenção.

    O Pacaya é um vulcão activo, talvez dos mais fáceis de visitar no mundo. A uma hora de condução da cidade de Antigua e a uma hora a pé desde o final da estrada reserva aos que aqui chegam a oportunidade de ver lava a nascer da terra e a deslizar lentamente para o vale. Lava a sério, incadescente e imparável acabada de sair do centro do mundo e capaz de pegar fogo até às pedras que se lhe atravessam o caminho.

    À medida que nos aproximamos o frio da montanhas dá lugar a um calor que nos sua e nos obriga a reduzir os agasalhos. O chão, cada vez mais quente,derrete as solas de menos qualidade. O caminho é íngreme e a altitude rouba-nos os fôlego. Até que, ao passarmos mais um cume, chegamos. Incandescente, move-se pausadamente à nossa frente. Deste lado do mundo as normas de segurança são ainda relativas. O calor é suficiente para eu um pedaço e madeira entre em combustão imediata ainda antes de tocar o magma. È um calor que queimas as mãos e a cara insuportavelmente mas que aguento para a fotografia que assinala o momento.

    Não nos demoramos muito no local. A lava flameja no fundo das fissuras que cortam a pedra rija onde caminhamos. Resta descer com a memória de um momento extraordinário, de um poder imenso e adormecido.

    Foi como pegar numa arma pela primeira vez ou tocar em silêncio um animal belo e perigoso quando está sedado. Assim nasce a terra de onde nascemos todos nós. Assim começa o nosso chão.

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    Mensagem à Beldade Mexicana

    Não fosse a tua original intervenção (Crónicas do México), a forma como me “derreteste” a carteira e assim me “enclausuraste” em Playa del Carmen quase duas semanas, estaria agora nas Honduras, em pleno Golpe de Estado e sob as ameaças de guerra de Hugo Chavez.

    Suspeito que tal como a enfermeira Holandesa (Crónicas da Indonésia) és  afinal  um anjo enviado pelos, já com certeza agastados, Santos do Oratório particular da D. Guilhermina (Crónicas do Irão).

    Regressa pois Cariño, tens o meu Perdão e continuas a ter tudo o resto.

     

    O mundo dos "A"normais

    São inúmeros. Poderia definir como maioria relativa mas é injusto. Aliás, entraria em contra-senso com a definição em si mesma já que a palavra implica uma normalidade prevalente em que a categoria referida não se integra.

    Como a palavra diz, os “A”s são aqueles que não pertencem à normalidade, grupo que por sua vez  está nitidamente a cair cada vez mais em minoria. O “A” por si mesmo, é apenas uma letra e  não faz juízos de valor. Mas, se me acreditarem quando vos digo que sou amplo e generoso no termo “normalidade”, percebem que não me deveria ser fácil atribuir o “A” completo a alguém. Infelizmente, embora difícil, não deixa de acontecer.

    Os “A”normais, não são doentes mentais, nasceram saudáveis dos pés à cabeça, apenas lhes calhou uma percepção do mundo comum e peculiar, minúscula e numerosa, invulgar mas muitas vezes popular e ameaçadora. O denominador comum é acreditarem na teoria do escasso: como tudo é escasso à que agarrar tudo o que podem e eliminar quem lhes possa ameaçar o escasso que pensam deter. Assim se governam: astuta e limitadamente.

    Quando, depois de encalhado num autocarro algumas horas sem nada de beber perguntei ao senhor ao meu lado se tinha algo de beber disse-me que sim… mas que não me podia dar. Eu estava morto de sede. Explicou-me, quase zangado, que a  enorme garrafa de coca-cola que segurava era para os “ninhos”. E eu, mesmo sem ver ninhos nenhuns, disse-lhe “Pois”. Depois, comigo já noutra, continuou a falar e começou a discorrer sobre a Influenza e os “ninhos” e etc… “Pois” disse-lhe e comecei a desenhar mentalmente a primeira perninha no “A”.

     Apesar de eu permanecer caladinho, fez-me então um discurso sobre como não tinha copos, e tinha pedido copos mas não lhe tinham dado copos, nem para os “ninhos”. Como os “ninhos” nunca mais vinham começou a dissertar que os “ninhos” nunca mais vinham e “será que passou algo ! ” e de que já estava preocupado. “Pois”. Foi nessa altura que comecei a desenhar a segunda perninha do “A”.

    O segundo episódio foi repentino e consistiu no senhor desatar a correr à chuva, rua acima, agarradinho à garrafa de Coca-Cola. Parece-me que ia à procura dos ninhos…, mas duvido. Foi nesse momento de esforço físico invulgar que o senhor ganhou o “A” todinho por inteiro. Foi uma cerimónia cerebral com todas as devidas festividades. Mas continuei com sede.

     

    Um lugar esquecido

    Para lá da estrada esburacada que desce dos vulcões à costa, depois de uma hora em terra batida e dependente das direcções dadas pelos agricultores que sempre se encontra, depois da ponte que atravessa um dos canais do manglar, temos que deixar o jipe. Depois procura-se um pescador que nos alugue um barco. Mais meia hora de espera por outros passageiros e meia hora nos canais que se entrecruzam antes da barra que nos separa do mar, Chegamos à aldeia.

    Não há nem rede de electricidade e a água doce escasseia. Não há carros nem sequer alcatrão. Quase todas as casas seguem sendo feitas de madeira e folhas de palmeira secas. Até a Igreija. As ruas sem alcatrão, são floridas nas bermas. Não vejo um pedaço de lixo que seja.

    Aqui todos são pescadores. Não vejo nem fome, nem mendicidade, nem pobreza. Até os cães que vejo são saudáveis. As pessoas estão isoladas mas estão bem. São incrivelmente amáveis. Depois do pequeno povoado abre-se uma gigantesca, deserta e ventosa, praia onde nasce o Pacífico. O vento é quente, o sol é forte, a areia é negra e o mar bravo. Apesar de gigantesco e espumoso, é um mar que é só nosso. A praia imensa não têm ninguém por quilómetros em ambas as direcções.

    As mulheres da aldeia oferecem de comer. Os homens partilham de bom grado umas cervejas e os putos procuram-nos para que lhes tiremos fotografias. Nada nem ninguém nos pede nada.

    Este é um paraíso perdido, como pensava não existir mais. Decidi por isso esquece-lo. Os benefícios económicos do turismo aqui não fazem sentido. Estas pessoas estão bem. Sente-se, respira-se isso. Não precisam de gringos new age, supostamente alternativos, mas que acabam apenas por levar putos de cinco anos, em vez de irem à escola,  ganharem uns extra a vender canabis ou mushrooms como já presenciei em outros paraísos que tiveram o azar de serem descritos como tal nos guias Lonely Planet.

    Este sonho vou esquece-lo. Apaguei o caminho da memória. Não apago é o doce sabor de que ainda é possível encontrar estes sítios e isso sim quero que saibam, que os procurem e que no final, como eu, os esqueçam.

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    A Moeda

    Passa-me para a mão uma moeda que lhe ofereceram. É uma moeda de 1 Euro Francês.

    Há meses que não via uma. Pergunta-me sobre o que diz. Falo-lhe da revolução francesa, da Europa. Pegamos em cada uma as palavras nessa moeda e falamos da Guatemala.

    Regressamos depois à Europa onde lhe explico como a moeda tem uma face diferente em cada país. E depois de todos estes pormenores, pergunta-me o rapaz – e agora diz-me…, como é possível que uma moedinha tão pequenina possa valer 11 Quetzales ? –

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    O Absurdo

    “Yo soy Francês Integral y me seria impossible vivir fuer de nuestros limites geográficos, pêro ódio al que es Francês por ser Francês nada más.  Yo soy hermano de todos e execro al hombre que se sacrifique por una idea nacionalista abstracta, por el hecho que ame a su pátria com una venda en los ojos. El Chino bueno esta mas cerca de mi que ele Francês malo. Canto a Francia e la siento hasta la medula, pero soy antes hombre del mundo e hermano de todos. Desde luego, no creo en las fronteras políticas. “  

    Assim declama Simon durante a noite no meio da estrada que contorna a praça central de Quetzaltenango. Segura uma megafone vermelho e está vestido de forma colorida e improvisada. É actor e estava por acaso, como eu, de passagem. Trata-se do Festival do Absurdo, um evento dinamizado pelo Centro Cultural desta Cidade.

    Giovanni que o gere é, apesar do nome, Guatemalteco. O pai deu-lhes os nomes dos seus dois melhores amigos, e como um era Francês e o outro Italianio, o rapaz Maia cresceu com um nome mais europeu que “Durão Barroso”.

    O seu dinamismo já o levou a trabalhar em Espanha, a estudar com bolsas em França e Moscovo. Depois regressou a casa. Com um escritório que ocupa a antiga mansão de um dos ditadores da Guatemala, desdobra-se em actividades impossíveis de acreditar para um organismo sem orçamento próprio. Tudo nasce de apoios das Embaixadas na capital, organismos de cooperação de países europeus e latino-americanos, contactos com empresas e centros culturais em todo o mundo. Tudo nasce da pessoa extraordinária que Giovanni é.

    No Festival do Absurdo participam artistas e actores da Guatemala, Costa Rica, Peru e Nicarágua. Alguns dormem no próprio escritório de Giovanni e as chaves de sua casa andam de mão em mão para que possam ter onde tomar banho. O impacto nesta pequena cidade é absoluto. As suas ruas pacatas e conformadas são invadidas por peças de teatro, exposições, improvisações, animação variada, artes plásticas, desfiles e manifestos artísticos.

    - A ideia é provocar reacções com o Absurdo – explica-me Giovanni – A Guatemala sofreu demais com a ditadura e as guerras. As pessoas ainda têm medo de participar, de falar, de denunciar, de expressar as suas opiniões. Como as “aglomerações” eram proibidas, o simples facto de conseguir que os transeuntes parassem a assistir a um artista na rua já era, até à pouco tempo, uma vitória. Ainda há muito medo aqui.-  

    “Yo soy Guatemalteca Integral y me seria impossible vivir fuera de nuestros limites geográficos, pêro ódio a la que es Guatemalteca por ser Guatemalteca y nada más. “-  exclama uma jovem local – “Yo soy hermana de todos e execro al hombre que se sacrifique por una idea nacionalista abstracta, por el hecho que ame a su pátria com una venda en los ojos. El Chino bueno esta mas cerca de mi que ele Guatemalteco malo. Canto a Guatemala e la siento hasta la medula, pero soy antes mujer del mundo e hermana de todos. Desde luego, no creo en las fronteras políticas. “

    Já estou sentado no chão da praça, com Simon a meu lado e junto a Marina que me explica atentamente  - Todo o Festival circula à volta da ideia de demonstrar às pessoas que se podem expressar, que são Livres, que há sempre novas maneiras de dizer as coisas, de impactar os outros, de os fazer parar e pensar, de mudar, de mudar a Guatemala para melhor. As pessoas ainda têm muito medo. Aqui são assassinadas cerca de 8.000 pessoas por ano. Mas, se  nos calarmos, se o permitirmos, nunca nada vai mudar –

    Marina é uma jovem de 22 anos que lidera o “Movimento Emergente”, um grupo de jovens organizado e independente que se define nem de esquerda nem de direita mas simplesmente como Humanista. Lutam com o que podem para acordar a Guatemala. Pela Mudança.

    Uma cooperante española avança e pega no megafpne: “Yo soy Andaluza Integral y me seria impossible vivir fuer de nuestros limites geográficos, pêro ódio al que es Andaluz por ser Andaluz nada más. Yo soy hermana de todos e execro al hombre que se sacrifique por una idea nacionalista abstracta, po el hecho que ame a su pátria com una venda en los ojos. El Chino bueno esta mas cerca de mi que ele Andaluz malo.Canto a España e la siento hasta la medula, pero soy antes mujer del mundo e hermana de todos. Desde luego, no creo en las fronteras políticas. “ 

    Hoje é quase o último dia do festival. Nesta última semana tive oportunidade de partilhar parte dos meus dias com os seus participantes. Chamam-me “el Português”. De alguma forma é gente que me renova. Ao observa-los a eles e ao impacto que têm na gente que passa confirmo a percepção que tenho desde o México de que existe uma energia na juventude deste continente que é prometedora. É uma energia que nos deve encher a todos de esperança.

    Entendo que é a minha vez. Avanço para o meio da estrada, pego no megafone, e leio em voz alta na cidade desconhecida as palavras de Garcia Lorca, que nunca foram tão verdade e tão belas como nas mãos jovens que presenciei esta noite.

    “Eu sou Português Integral e me seria impossível viver fora dos nossos limites geográficos, mas odeio ao que é Português por ser Português e nada mais. Eu sou irmão de todos e abomino ao homem que se sacrifica por uma ideia nacionalista abstracta, apenas por amar à sua pátria com uma venda nos olhos. O chinês bom está mais próximo de mim que o Português mau. Canto a Portugal e sinto-o até à medula, mas sou antes um homem do mundo e irmão de todos. Não acredito em fronteiras políticas.”

     Absurdo é não o entender, absurdo mesmo é não acreditar.

     

    Café Amargo

    A cidade de Quetzaltenango nasceu do café. Quando este sabor que nós portugueses tanto amamos viciou o mundo, também aqui, os descendentes de europeus latifundiários começaram a enriquecer.

    Á medida que as aplicações industriais deste grão se desdobravam, um novo impulso económico fortaleceu algumas famílias e a cidade encaixada entre vulcões verdejantes, hostil às inúmeras comunidades maias que ainda perduram, sofreu os devaneios provincianos de quem tem muito dinheiro e não imagina como o gastar.

    D. Henriquez era um desses privilegiados do café, e não se inibiu de contratar um arquitecto italiano, mandar vir mármore da Europa e madeiras preciosas de outros cantos do mundo para construir não um palácio mas um Centro Comercial.

    A agitação social nesta cidade esquecida deve ter sido semelhante à inauguração de um Feira-Nova em Alcochete. Não se tratava de um Centro Comercial qualquer, mas uma cópia da famosa “Passage” em Milão. Foi o primeiro Centro Comercial de toda a América Central e permanece um edifício bonito e elegante. É obviamente mais pequeno  que o original em Itália mas tem alma e dignidade própria.

    Foi, além de bonito, bem construído e sobreviveu aos vários sismos que já por mais de uma vez arrasaram esta cidade vulcânica.

    Hoje, na “Passage” vendem-se tortilhas e cervejas Gallo. Muitas das lojas estão fechadas. Como são poucos os que aqui passam, a grandiosidade traduz-se quase num eco desconfortável. Muitas comunidades maias continuam a viver isoladas  nas montanhas circundantes e o café das fincas em que trabalham continua a ser degustado em Milão e no resto do Mundo. Quanto  à minoria que a construiu já a abandonaram: para eles, estes sonhos de urbanidade já não fazem sentido. O mundo está comodamente pequeno para poder ser desfrutado em distantes condomínios fechados.

    O que este monumento testemunha é que, embora por todas as razões erradas, D. Henriquez e aqueles que enriqueceram com o solo da Guatemala e o suor dos seus nativos, pelo menos então, pertenciam aqui. Esta era a sua cidade. O abandono, a digna solidão que constato, testemunha que hoje nem isso. Que os frutos da terra e o suor dos indígenas terminam provavelmente em mãos que nunca aqui estiveram.

    Gostava que esse suor, o suor das mulheres e crianças que facilmente encontramos a trabalhar  demasiado duro se mistura-se no café que nasce de suas mãos, que este de tão amargo e salgado nos revolta-se a consciência, cada vez mais, até que estas lojas se enchessem de coisas novas, até dos bens desnecessários que todos precisamos. Gostava que o chão de mármore se enche-se de pés locais, mas bem calçados, cansados mas dignos, que de frente  a montras iluminadas fizessem contas aos sonhos que podem e não podem comprar. Que os que a atravessam tivessem uma vida, uma vida normal e difícil como a nossa e não uma exploração inaceitável que permanece degradante.

    Talvez se D.Henriquez junta-se aos arquitectos Professores, e à luz dos candelabros a voz dos seus trabalhadores o seu sonho tivesse perdurado, talvez a “Passage” fosse hoje mais que um ostentoso monumento à sua ignorância. Restam-lhe as tortilhas e as cervejas Gallo. Nem tão pouco lhe resta a esperança, pelo menos enquanto alinhados na sua ignorância continuarmos a arrumar e esquecer Direitos Humanos numa gaveta pequena, mas muito practica, que intitulam de Idealismos de Esquerda.

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    Alicia

    www.emviagem.netO Tajumulco é o vulcão mais alto da América Central. Cai com frequência neve  e gelo no seu topo. A estrada que desce ao vale que o circunda é de terra, estreita e traiçoeira. Derrete com  pedras soltas os travões dos que aqui se aventuram. No fundo fica a sede do município. De aí partem alguns caminhos, muitos apenas possíveis de percorrer a pé, para pequenas comunidades nas encostas do Vulcão e das montanhas vizinhas. Uma gigantesca cascata corta o verde íngreme permanente e na beira da estrada, mulheres despidas escondem-se dos meus olhos desconhecidos em águas quentes e sulfurosas que nascem entre as águas gélidas de um dos ribeiros. A terra aqui é fértil. Consegue-se duas colheitas de milho anuais mas o isolamento, entre outros motivos, determina uma  pobreza endémica.

    Foi nestas encostas que me apresentaram a Alicia. Ela recebe-me  com sorrisos e refresco de limão. As palavras percorrem a curiosidade que sendo de fora sempre desperto. Com os filhos agarrados às pernas não nos deixa seguir caminho:

    -  As tortilhas já estão quase prontas ! - Pronuncia num enorme sorriso.  

    Amassa-as nas mãos e aquece-as no fogão a lenha. Ficamos. Serve-nos um caldo saboroso de verduras, tortilhas espessas e saborosas, feijão. Está feliz por eu gostar da sua comida. Preocupa-se que o copo de refresco nunca esteja vazio. Quando lhe agradeço a hospitalidade e a saborosa refeição que me ofereceu, pede-me desculpa, desculpa por não me poder oferecer carne.

    Impressionado, saio e reparo num quadro escolar que, na sua invulgaridade, permaneceu pendurado na parede detrás de mim.

    - O que é ? – Pergunto-lhe.

    Contam-me então. Alicia foi à escola quando era pequena. Tem a primeira–classe. Nesta região do país o analfabetismo chega aos 80%. Por isso, na mesma cozinha onde me ofereceu de comer recebe os outros membros da comunidade, os seus vizinhos que querem aprender a ler. Ali, com o vulcão a tapar a vista da porta da rua, nas cadeiras de plástico barato, assente num chão de cimento, Alicia ensina aos seus companheiros tudo o que aprendeu na escola, ensina-lhes a ler.

    - As pessoas quando sabem ler não são enganadas. Pensam de maneira diferente. Têm menos medo. 

    Com pouco mais que a primária, Alicia ensina a ler aos outros, os que no seu tempo não tiveram o privilégio de ir à escola. Ensina tudo o que sabe em troca de nada.

    E quando lhe faço a pergunta mais difícil de proferir, aquela cujas respostas estão em nós próprios e não em quem nos escuta, quando lhe pergunto :

    - porque lo haces ? - responde-me - Porque lo necessita mi gente.

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    O Vento

    www.emviagem.netA mulher reza aos deuses dos seus antepassados. Os joelhos estão vincados na terra molhada. Envolve-a o fumo das oferendas queimadas, a ladainha dos que a seu lado a acompanham. São muitos.

    É uma oração de agradecimento que envolve toda uma família. Rezam em uníssono, na selva, ajoelhados enquanto o fogo consome as suas ofertas aos deuses. Ao subir, o fumo leva ao cosmos os seu obrigado. É um fogo único que arde junto ao altar milenário nas ruínas de Takalikabaj.

    Explica-me quem aqui encontro que sabe que se trata de uma oração de agradecimento porque as ofertas são queimadas em conjunto. Nas cerimónias de pedido, estas são queimadas uma por uma em ordem determinada pelo mago que conduz a cerimónia.

    As pedras são mais velhas que o tempo, os homens e as mulheres são os que encontro na rua, os ritos são-me desconhecidos, o poder absoluto. A selva envolvente parece ser a única coisa que me separa do antes e depois deste momento que presencio. Ao meu lado pedem-me os dados do meu nascimento. Leiem-me. Dizem-me que no passado fui o dinheiro e que no presente sou o Vento. Diz-me quem não me conhece que como o Vento  não respeito sequer as portas e que entro nas casas das pessoas em toda a parte. Dizem-me que como o Vento não tenho casa, que é do próprio movimento que nasce a minha energia. Diz-me quem me leu o passado e o presente qual é o meu futuro. Palavras profundas e claras.

    E a mulher levanta-se e volta a ajoelhar-se em nova direcção. Todos os pontos cardeais são cobertos. A Leste celebra-se o início de tudo e a Oeste o fim. Para Norte fica de onde venho e para Sul o meu caminho.

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    Abraham

     

    Com metade do mundo no passaporte escuto o escritor que isolado no topo do monte não pode sair do mesmo sítio. Um acidente quando esteve exilado no México arrancou-lhe à 17 anos a liberdade das pernas. Resta-lhe a Liberdade como valor que segue defendendo, e a Liberdade do espírito  que segue comandando os seus livros.

    De pé, num mar de desilusões e dificuldades, imobilizado numa cadeira de ferro que devia ser antes de raiz de árvore, abraçado a uma mulher tão forte como um poema, Abraham no topo da sua montanha escreve livros que não edita. Começou por escrever o seu acidente, depois o deserto negro que atravessou, depois memórias da Infância, depois um livro a um amigo, depois poemas e agora um romance.

    Para mim tudo começou quando me chegou um livro no qual um escritor desconhecido me assinava na primeira página: “porque los amigos no necessitam conocerse personalmente para serlo ”. Dias depois foi Lígia, o poema que o cuida, a mãe dos seus filhos, quem me trouxe aqui, ao alto do monte onde vivem.

    Agora Lígia cozinha ao nosso lado o almoço enquanto Abraham me navega pela sua mão e voz por pedaços dos seus livros. Oferece-me alguns e depois, já com a comida na mesa, pergunta-me:

    - e tu, qual é a tua história ? –

    E respondo-lhe e pergunta-me:

    - e és Feliz ? –

    E respondo-lhe e escuta-me. E  constato depois em silêncio como o destino nos uniu ali correndo o risco de ser  macabra ironia: dois homens que amam o mundo, um com metade dele nas pernas e o outro paralisado no alto do monte.

    E enquanto penso que ambos o realizamos em silêncio, percebo também que por muito que tenha eu andado, foi ele quem ensinou toda a manhã, foram os seus livros que lemos e as suas histórias que debatemos. É seu o poema que  em sua casa, onde cresceram os seus filhos, me recebeu e cozinhou o almoço que comungamos. E isso lhe digo, sem ignorar ou reduzir a dor que me descreveu e que se impõe entre os dois.

    Com um poema a seu lado Abraham ergue-se mais alto, de pé entre dor e dificuldades, ergue-se com palavras que valem por milhares de quilómetros , livros não editados cuja história e sentido exigem a nossa imobilidade.

    Ali, no topo daquele monte, os passos deixam de fazer sentido, mas o caminho prossegue pela mão de um escritor abraçado ao seu poema.

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    O Verdadeiro último Segredo de Fátima 

    -Já ouvi falar de Portugal – diz-me a velha bem arranjada sentada na mesa ao lado- tenho uma amiga que foi lá.-

    Acabei de jantar num pequeno “comedor” em Somoto, no norte da Nicarágua e uma senhora quis saber quem eu era.

    -Emigrou para Espanha, mas como aí controlam muito as fronteiras, entrou por Portugal.-

    Curioso, pergunto-lhe como fez ela isso, qual era afinal o esquema.

    - Organizaram um grupo para ir ver uma Virgem que há no teu país –

    - Fátima ? – pergunto-lhe

    - Não me recordo. Sei que saíram todos animados com rosários e crucifixos… e depois de aterrar em Portugal, subiu para um autocarro  e escapou-se para Espanha. Nem foi ver a Virgem.

    - E o resto da Excursão ?

    - Qual Excursão! Estavam todos feitos ao mesmo. Assim que chegaram à fronteira foi cada um para seu lado, Deus os protega.

    -Amén.

     

    A Esquerda Castrista

    A esquerda na América Latina é um desafio. Mais do que um desafio à Direita, ao neoliberalismo, aos resquícios e vícios das ditaduras que assassinaram este continente no século vinte, é uma esquerda que desafia a nossa esquerda, uma esquerda ocidental, normalmente humanista, democrática e progressista.

    Não me refiro à Esquerda de Lula ou Bachelet, mas à Esquerda de Evo Morales(Bolívia), Hugo Chavez (Venezuela) e de Correia (Equador). É uma esquerda que denominarei de Castrista e que tem em Chavez um poderoso rejuvenescedor que, suportado pelas reservas petrolíferas da Venezuela, financia energeticamente aos seus companheiros medidas por vezes milagrosas, outras claramente populistas, que estão a mudar a América Latina.

    Para mim, uma Esquerda que renuncia à Liberdade de Imprensa ou em que, como em Cuba, o poder passa de irmão para irmão e permanece tudo em família, não é Esquerda.  Uma Esquerda que aumenta o salário mínimo em 60% a poucos meses das eleições como o fez Zelaia não é uma Esquerda Sana e Inteligente.

    O problema é que todos os que os antecederam, a forma como o poder está tão pouco distribuído nestes países legítima para muitos estas medidas radicais. Eu não estou disposto a abdicar de alguns princípios fundamentais, mas, num continente com demasiada pobreza e onde um terço das crianças ainda não vão à escola, há muitos que sim. A eles pouco lhes interessa que fechem rádios ou sequer imaginam o que é a Inflação. O que o povo sabe é que agora lhes aumentam os salários nas Honduras, há um médico cubano em cada aldeia da Venezuela, terminaram os apagões de 12h na Nicarágua e que o primeiro ministro da Guatemala lhes oferece cabazes com produtos alimentares num programa financiado com fundos governamentais mas que leva o seu apelido.

    As ditaduras anteriores, as incríveis diferenças sociais, tornaram demasiado fácil à Esquerda Castrista a evidente conquista do Continente. Este gigantesco processo social e político não deixará de no futuro de produzir uma herança positiva, até de alguma forma necessária e incontornável, mas não deixa também de ser uma experiência que nós Europeus já vimos falhar junto às nossas portas.

    Ilogicamente o insucesso económico em Cuba não é explicado pelo desastre comprovado do mesmo modelo na União Soviética mas pelo afamado bloqueio dos Estados Unidos (um bloqueio que poderia primeiro proteger e depois fortalecer a iniciativa privada em Cuba, isto é, caso a iniciativa privada aí existisse).

    As culpas de tudo o que aconteceu e acontece na América Latina continuam a ser ditadas aos Americanos. E se é verdade que têm quase todas as culpas, a verdade é que a sua acusação é também uma forma de validar o sistema oposto defendido. Pior é que tais constantes acusações são uma forma cómoda de os países se desresponsabilizarem dos seus próprios erros, pelos crápulas que neles nasceram e que os venderam por contas pessoais de milhões.

    As costas dos “Gringos” são largas nestes lados e mesmo que com razão… os “Gringos” não vão mudar. Mesmo que o façam, não faltarão outros movimentos “imperialistas” interessados em comprar o que estiver à venda. Esta projecção nos Estados Unidos de todas as culpas anulou e anula um processo fundamental de auto-avaliação e auto-responsabilização que hoje tornaria a América Central e do Sul mais imune à importação de movimentos totalitários.

    Explicam-me os apoiantes desta Esquerda Castrista que não existe outra alternativa, demonstram-me com exemplos penosos tudo o que foi perdido ou não-conseguido com as alternativas mais democráticas. Talvez o problema seja esse. Talvez o que a América Latina necessite  seja de uma Direita decente, intransigente nos direitos humanos  e liberdade de expressão, democrática e progressista, Incorruptível e comprometida  em arrancar da miséria os seus eleitores. Será possível ? Para já, parece-me que não.

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    As Colinas de Ocotal

    Amanheci  cedo e  pouco depois subia para uma pick-up carregada de homens e mulheres hondurenhos. Seguia-mos para o Parque municipal onde nos esperava a árdua tarefa de plantar as árvores que vão “adornar” o novo museu que coroa a colina onde decorreu a primeira batalha de Sandino, o “Pai” da Nicarágua. A vista do topo da colina abarca todo o vale e é deslumbrante mas o calor abrasador e a terra seca e pedregosa tornam a tarefa difícil.

    Em grupos, com ferramentas emprestadas pela Alcaidia (Câmara Municipal) de Ocotal semeiam árvores.

    - Estas árvores – explica-me a vice-alcaidesa Elizabeth Tzatutu, ficam na história da Nicarágua e das Honduras como memória dos que aqui resistiram ao Golpe de Estado contra Zelaia.-

    Conheci  Elizabeth e conversei com ela por acaso. Também eu me tinha juntado aos resistentes a  plantar aquelas árvores de esperança. Acontece que ao final da manhã as mãos já estavam cobertas de bolhas e uma sangrava dolorosamente. Parei para lavar as mãos e descansar  e foi então que a Alcaidesa se aproximou para saber afinal quem era eu, quem era “aquele personagem europeu a cavar com uma enorme máquina fotográfica às costas”.

    É uma mulher pequena, magra, viva e elegante. Bebemos juntos água gelada e quando me diz quem é transmito-lhe a minha admiração pela forma como o povo de Ocotal recebeu os seus irmãos hondurenhos. Referia-me às atitudes genuínas da população que presenciei e não apenas aos gestos oficiais do governo local e outras instituições.

    Elizabeth resplandece de alegria e orgulho. Conta-me que foi e sempre será revolucionária, como quando tinha 15 anos foi guerrilheira,  como fugiu para as Honduras e de como aí, sob risco de vida, desconhecidos a esconderam e alimentaram meses a fio. Conta-me  de como o seu caso não é único e da gratidão que os habitantes de Ocotal guardam aos seus vizinhos.

    Conta-me também porque fugiam, conta-me o dia em que vieram pelo seu irmão e o arrastaram pelas ruas de Ocotal amarrado a um automóvel, como lhe partiram os ossos às coronhadas e depois o acabaram com um tiro no crânio à sua frente, junto de sua mãe e dos restantes 10 irmãos.

    - Continuamos sempre a dizer que somos 12. Ele continua entre nós.

    Conta-me depois o dia, anos depois, em que com a sua mãe reconheceram num autocarro um dos elementos da Guarda Civil que tinha torturado e abatido o seu irmão. Ela quis levantar-se e mata-lo ali mesmo mas  sua mãe não a deixou. É com lágrimas nos olhos que me reconta o que lhe disse:

    - Não filha. Os nossos heróis são heróis de Amor, não  de Vingança.

    Um amor que, testemunhei, vai crescer e dar frutos nas colinas de Ocotal.

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    Camila 

    Rodrigues é Professor nas Honduras. Indignou-se com o Golpe de Estado. Protestou. E como protestar não resolveu nada, Protestou outra vez. E Protestou, Protestou até que perante o risco de também ele ser preso ou desaparecido, atravessou a monte a fronteira e está agora refugiado na Nicarágua. Não sabe quando pode regressar.

    Mas Rodrigues tem também um segundo nome: Camila. Explica-me depois de hesitar que prefere que o trate por Rodrigues nesta entrevista.

    -Só uso o nome Camila quando estou mais divertido/a – justifica-se com uma piscadela de olho.

    Pergunto então a Rodrigues se alguma vez se imaginara refugiado político em outro país:

    -Claro que não!

    Rodrigues não tem qualquer passado político ou sindicalista. Pergunto-lhe porque o fez, porque se revoltou e protestou ele tanto e a resposta é clara:

    - Pela minha Pátria. Pela Democracia. Sabes o que é mais irónico ? Eu nem sequer votei por Zelaia.

    - Estas disposto a morrer por esta causa ?

    - Sim. E cada dia que passa mais disposto estou. Não quero viver num país sem liberdade.

    Pergunto-lhe como convivem os seus companheiros de resistência com a Camila:

    -Sem qualquer problema. Até nos divertimos com o assunto. As pessoas têm noção que a luta que nos espera é demasiado grande para esse tipo de problemas. Todos somos irmãos nesta causa. Todos somos necessários, até a Camila.

    - Algum dia vou conhecer a Camila ?

    -Claro que sim, quando tudo isto passar e me vieres visitar a Tegucigalpa.

    Prometo-lhe a visita e pergunto-lhe o que pensam os outros hondurenhos da T-shirt que enverga e que diz: “Busco pareja estavel para esta noche”

    - Não sei- responde-me- vesti-a só para esta entrevista contigo…

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    A Cidade e o Vulcão

    Quem começa com a berraria é o próprio Bispo que, aperaltado como um domingo de Páscoa, terminada a missa das 5, vai à porta da Catedral e do alto das escadarias, perante a multidão, desata numa gritaria pegada à Virgem Maria.

    O homem não está louco. Apenas repete a tradição, talvez das obrigações mais divertidas que couberam no destino. À muitos muitos anos, o vulcão Cerro Negro, junto à cidade de Léon na Nicarágua, começou a cuspir cinzas. Cada vez em maior quantidade e agitação, a cinzas começaram a cobrir a cidade que já conta na sua história mais de uma catástrofe. Era Agosto, próximo da data em que a Igreja Católica celebra a Assunção de Maria. Um Cura mais devoto e desesperado saiu à rua a gritar à Virgem e os Leoneses, vendo que o vulcão se acalmava, juntaram-se a ele iniciando a chamada “Gritaria”, tradição que se repete deste então a 14 de Agosto.

    Depois da berraria do Bispo, a multidão aplaude em alegria. Gigantones e fogo de artifício inundam esta que é das praças mais bonitas do país. A multidão no entanto não permanece. Em grupos barulhentos percorrem a cidade aos berros. Muitos dos habitantes constroem à porta de casa nesta noite altares à Virgem e retribuem com caramelos e guloseimas os que ali surgem na gritaria obrigatória.

    A noite é de alegria e prossegue em bares e discotecas improvisadas. A Gritaria dá lugar ao regatton, uma dança do Caribe que de virginal não tem nada:

    - é como ter sexo sem tirar a roupa – ensinaram-me.

    O Rum é puro e a festa é brava, incluindo cenas de incrível pancadaria que todos assumem com incrível naturalidade.

    O dia seguinte amanhece mais tarde. As portas estão fechadas, os altares à virgem desapareceram, a praça da catedral já está limpa e vazia e o vulcão, silencioso, negro e aparentemente indiferente, pareceu-me comprometido em oferecer mais um ano de paz à cidade.

    (Veja o vídeo em: http://www.youtube.com/watch?v=LUcdTu2Kjqg

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    A Alemã que vive no fundo do Lago

    Conhecemos-nos na base do vulcão Madera, numa quinta de café que aluga quartos baratos e serve boa comida. É alemão, jovem, viaja sozinho na Nicarágua depois da namorada europeia o ter deixado.

    Cansado de pensar nela, de sofrer o peso da sua ausência, da dor das dúvidas do que poderia ter sido diferente, conta-me como se decidiu a terminá-la: “Afoguei-a”

    Não literalmente. Mathias decidiu-se na sua viagem a arranca-la do coração, afasta-la do pensamento e apagá-la da memória. Sabendo da profundidade do Lago que nos circunda (O Vulcão Madera fica na ilha de Ometepe no Lago Nicarágua), sabendo que aqui se encontra a única espécie de tubarão de água doce do mundo, Mathias amarrou-a com pedras e do topo do Vulcão lançou-a ao fundo do lago.

    Claro que, como as sereias, ela vai deixar de o encontrar, talvez parecer uma e outra vez no pensamento, espreitar de surpresa nos momentos mais difíceis, mas, Mathias sabe que ela agora vive afogada no fundo do Lago Nicarágua, rodeada de tubarões que a retém a ela e o tranquilizam a ele.

    E se quando regressar à Alemanha ela o procurar, e só nesse caso já que ele não pretende regressar À Nicarágua, Mathias assegura-me que não importa:

    -  Quem quer que seja que me procure não será a mulher que eu amei – assegura-me  Essa provavelmente nunca existiu, e se existiu… ficou aqui.

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    As Tartarugas

    Somos apenas dez na praia imensa que de noite, mesmo sem lua e apenas com as estrelas, se ilumina com uma luz suficientemente presente para converter o mar em Prata e a escuridão em Sonho.

    Aguarda-mos sentados na areia  e com conversas amenas a chegada incerta das tartarugas marinhas que aqui, nesta praia protegida no estremo sul da Nicarágua vêm colocar os seus ovos.

    Apenas uma em cada 1000 tratarugas chegam à idade adulta. Vivem dezenas de anos e percorrem milhares e milhares de quilómetros. Mas, quando procriam, quando procuram uma praia para fazer o ninho e deixar os ovos das suas crias, regressam sempre à mesma praia onde nasceram. Exactamente a mesma praia onde nasceram, dezenas de anos e milhares de quilómetros depois.

    Quando vislumbramos a primeira é uma emoção. O guia pede-nos para nos afastar-mos o máximo possível e deixa-la percorrer em absoluta privacidade o seu caminho na areia. Se incomodadas neste período crítico, assustam-se e regressam ao mar, abandonando a possibilidade de procriar.

    Em linha recta, cautelosamente, com quase um metro de cumprimento, a enorme tartaruga caminha quase até ao fim da Praia, quase junto  ao início da vegetação.

    Começa então a escavar desalmadamente em busca de areia  e depois a colocar os ovos. Nessa altura podemos aproximar-nos e, como em todos os milagres, o silêncio impõe-se entre nós.

    Por fim, arrisco-me a dizer com enorme carinho, ela agita-se a cobrir de areia os ovos, girando sobre si mesma e tentando disfarçar o local onde os deixou.

    Reorienta-se (mais uma vez o guia pede-nos para nos afastar-mos) e depois caminha, parando algumas vezes, em direcção à imensidão do mar. Segui-a. Vendo-a caminha solitária, com a sua missão cumprida, seguindo lentamente para o horizonte. Só se escuta osseus passos e o quebrar das ondas até que alguém nos acorda segredando : “ está ali outra”.

    A noite prossegue com uma sucessão de milagres que me dizem em algumas noites chegam a ser aos milhares. Todas elas, todas elas de regresso à sua praia, à que escolheram para os seus filhos, caminham solitária, calma e destemidamente, são mães e regressam depois ao Oceano. E todos nós, em silêncio, nos deslumbramos repetidamente.

    ( As fotografias com flash agridem as tartarugas. Veja o vídeo com visão nocturna em www.emviagem.net/videos 2 )

     

    As Bolachas

    Quando me encontrava com  ela oferecia-lhe bolachas. Ela morava no quarto ao lado. Ambos  davam para a varanda aberta que corria todo o piso da “casa argentina”, pensão onde me alojei enquanto trabalhava em Quetzaltenango.

    Ali, com a vista sobre a cidade, encontrei-a mais de uma vez sentada  à sua porta quando eu regressava ao final do dia. Como quase sempre parava numa mercearia pelo caminho, sempre tinha bolachas e, por cortesia, oferecia-lhe uma.

    A primeira vez que tal sucedeu, não falámos. Por pressa minha e evidente tristeza dela, não falámos. E depois esse silêncio, já sem tristeza ou compromisso, ganhou carisma próprio e seguimos numa espécie de cumplicidade que se resumia ao consumo partilhado de bolachas ao entardecer. Nunca soube como se chamava.

    Semanas e países depois, numa ilha paradisíaca do Panamá, depois do entardecer e num momento de solidão, procurei o meu amigo Gin num dos bares abertos da aldeia. O bar era pequeno e por isso as duas dezenas de estrangeiros enchiam-no facilmente de alegria. Encostei-me ao bar absorvendo aquela alegria a que era alheio, a boa energia que me começava a despertar, quando me perguntam:

    - Não és o rapaz das Bolachas ? – Katie, assim se chamava, reconheia-me entusiásticamente. Insiste em me apresentar aos amigos festivos – This is the guy that used to give me cookies! –

    Insiste ainda em me pagar mais uma bebida . Finalmente conversamos, mas pouco, porque sou rapidamente absorvido pela massa anónima que antes apenas observava. Os vestígios de solidão são dissipados e durante toda a seguinte semana acabo até por me entregar ao hedonismo anglo-saxónico de muita praia, excesso de álcool e demasiado sexo. Benditas bolachas. Há pecados que fazem muito sentido no Paraíso.

    Uma manhã lenta e tardia, que de tão vazia me acordava o desejo de voltar a partir, perguntei a Katie que  se limitava a deixar o tempo passar como nos entardeceres  da Guatemala: Foram as Bolachas ?

    - Não, foi o silêncio.

     

    O Adeus à América Central

    Partilhei o táxi com um australiano a caminho do aeroporto da capital do Panamá. Mal o conheço mas coincidimos nos planos e destino e juntámos-nos para apanhar o avião que me faz abandonar a America Central.

    Este conjunto de países de que quase nada sabia acabou por absorver parte considerável do meu tempo nesta viagem à volta do mundo. As suas gentes, as suas culturas, o mar de problemas e constantes desafios aos meus valores e às minhas percepções do mundo obrigaram à minha permanência. Demasiado difíceis e intrigantes, não foram meses leves.

    Qiuando cheguei ao Panamá precisei mesmo de afastar-me da realidade. Com demasiado sofrimento na memória precisei mesmo de ser um turista vulgar e entregar-me a prazeres mundanos. Precisei de recuperar leveza e superficialidade, regressar ao mundo de ilusões em que muitos viajam. Precisei simplesmente divertir-me.

    Mas, o prazer não apaga a memória e, às vezes, confesso um certo sentimento de culpa por estar de passagem por tantos problemas e dificuldades e seguir caminho com a minha mochila em direcção a outro paraíso. Esse sentimento de culpa acentuou-se porque fechei os olhos para poder  caminhar. Rodeei-me de outros ocidentais, outras vidas fáceis em que o maior desgosto foi o fim do namoro anterior e tudo se resolve com mais uma cerveja (ou Gin).

    Já na Colombia escrevi a um amigo na Guatemala sobre esse sentimento, sobre a minha “fuga” nas semanas mais recentes. A resposta não podia ser mais generosa e partilho-a convosco, fazendo delas as últimas palavras das crónicas desta América que me mudou:

    -“ Não te sintas assim. O que fizes-te é o que todos nós fazemos, quase todos os dias, para poder seguir adiante e sermos felizes.”

     

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