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A Australia é um país marcante, sobretudo pela dimensão, mas também imensidão, da sua beleza. É um novo mundo que não termina, dia após dia emviagem, oferecendo-nos das paisagens mais fantásticas do mundo. Nesta viagem estive em Sydney que agoro considero das cidades mais bonitas do mundo, Byron Bay com o Gonçaço Cadilhe, Alice Springs para conhecer Ayers Rocks e outras maravilhas no Outback. Desci depois a Adelaide passando pela cidade mineira de Cobber Pedy e fiz a Great Ocean Road até Melbourne. Voltei a voar e voltei à East Coast para mergulhar na Grande Barreira de Coral.
A Boleia
Foi entre Kings e Kent street, uma esquina em Sydney, que ele me encontrou. Gonçalo é escritor e também português. Quis o imprevisível destino que também ele fizesse parte desta minha volta pelo mundo.
Não o conhecia de antes senão das suas crónicas e livros. Viaja em mais um dos seus múltiplos projectos que descreve entusiasticamente enquanto conduz.
Ofereceu-me boleia, encaixando-me no carro entre a sua mochila e a prancha de surf que o acompanha. Nesse dia partilhou inclusive o almoço que trazia consigo e acabámos por viajar juntos o resto da semana.
Como não nos conhecíamos de antes, trocamos opiniões, contámos múltiplas histórias de viagens passadas e apercebo-me, nos momentos de silêncio confortável que acontecem, do enorme privilégio que é viajar ao lado de alguém com uma personalidade tão vasta e absorvente.
Tento compreender sob as suas palavras o seu “motor”, o que fez este tipo embarcar numa vida tão rara entre nós portugueses. Quando parámos na primeira praia, em Crescent Head na costa oriental da Austrália, quando vi a alegria luminosa com que saltou para dentro do fato de surf e se fez com a prancha às escassas ondas que sobravam naquele final de dia, percebi: este tipo é como o mar. Tal como o mar abraça todos os continentes, e tal como o mar é saudavelmente inquieto, vasto e forte.
Habituado à redundante lusitana pequenez que mancha muitos dos portugueses abençoados pelo sucesso, confesso que sendo alguém tão conhecido, estranhei inicialmente a amplitude da sua generosidade, a “despretensão” dos seus gestos, a abertura com que fala de si e do seu trabalho. Mas agora que percebi que é como o mar, o mar forte e limpo da Figueira onde nasceu e cresceu, essa amplitude já não me estranha, ficou tão clara como a água em que mergulha.
Com o segredo desvendado, era o momento de eu continuar a seguir o meu caminho. O Gonçalo permaneceu rumo ao norte. Seguia em busca de mais uma das melhores ondas do mundo, como a onda que me apanhou anónimo na esquina entre Kings e Kent .
A Ousadia
Pitt Street é uma das avenidas mais cosmopolitas de Sydney, desemboca na pequena Harbour Bay de onde partem os ferrys para as diferentes zonas da cidade que abraça o mar com uma beleza incomparável e insuperável pela maioria das cidades do mundo que conheço.
Junto à Harbour Bay, num dos seus braços, fica a Opera House da cidade. Mais do que uma casa de espectáculos ou monumento, a Opera converteu-se no Ícone de Sydney, um símbolo da Austrália recentemente promovido a património da humanidade. Á medida que nos vamos aproximando apercebemo-nos da justiça de tanta fama: a sua leve beleza é esmagadora.
Mas, igualmente impressionante, é a concepção deste projecto e a história da sua construção. Este é também um monumento ao puro acreditar, um testemunho do querer e uma celebração á ousadia.
O projecto da construção actual foi originalmente eliminado. O Arquitecto que o apresentou (Jorn Utzon), desconhecido até essa data, fê-lo apesar dos conhecimentos de engenharia de então o tornarem impossível de construir. Mas, apesar disso, limitou-se a apresentar o projecto em que acreditava. Foi recusado.
Acontece que uma mudança nos Júris do concurso internacional que decorria para este empreendimento implicou a inclusão de um arquitecto americano que exigiu rever todos os projectos, incluindo os já recusados. Igualmente visionário e ousado, o novo j'iri americano escolheu e convenceu os restantes Júris que esta era a Opera House que Sydney merecia.
Quando a construção iniciou, ainda não se sabia como seria possível construir toda a estrutura. Um Projecto que estava previsto demorar 3 anos, demorou 14. Muitos foram os que a declararam impossível de ser construída. Mas enganaram-se. A Opera house foi concluída e hoje é visitado anualmente por 4 milhões de espectadores, muitos movidos mais do que pelos espectáculos, pelo prazer de experimentar o seu igualmente magnífico interior onde se privilegia a harmonia com o mar e a cidade.
A descida da Pitt street ao fim da tarde para assistir a um concerto no interior deste magnífico monumento pode por isso ser temperada de forma suprema pela recordação desta pequena história. Cada vez mais gosto de causas que alguém algum dia chamou de impossíveis: fazem-me sentir imensurávelmente recompensado pela decisão de partir.
Um Mundo Cor-de-Rosa
Antes de mais, queridas e devotas leitoras, um aviso: quero tranquilizar-vos que apesar de tudo o que vão ler de seguida, eu continuo exactamente o mesmo rapaz, o mesmo João que partiu de Alcochete em Agosto de 2008. Como se diz por aqui: No Worries!
Desde que subi à montanha pela mão da Madonna, entre jantares com Marajás e fugas aos Lady Boys da Tailândia, rapidamente percebi que o mundo é muito mais cor-de-rosa do que supunha.
Mas tanto cor-de-rosa só me deu medo quando me vi em pleno Mardi Grass, um dos maiores acontecimentos anuais em Sydney. Nos dias que antecederam este mítico festival da cidade todos me explicavam que era mandatório estar presente. Fui convidado para duas festas: uma numa suite no Sheraton e outra numa Pensão em William Street.
Mardi Grass corresponde ao nosso Carnaval, mas foi ao longo dos anos “expropriado” pela comunidade homossexual da cidade que nesse dia marcha pelos seus direitos e celebra a sua diversidade. Foi uma expropriação bem conseguida: Sydney celebra a imagem cosmopolita que tal manifestação lhe confere e os milhões de dólares que assim entram na economia da cidade.
O meu hotel é numa zona central e nocturna: Kings Cross. Quando desço à rua, todos se passeiam com uma ou outra máscara, uma ou outra peruca ou pelo menos alguns brilhantes na pele. Há filas nas lojas de bebidas alcoólicas pois todos se preparam para uma noite de farra. Em Roma há que ser romano, e na falta de uma loja do chinês… entro numa sex-shop em busca de algum artefacto que me confira o necessário passaporte para a excentricidade. Afinal estou no outro lado do mundo e mesmo com 10.000 visitas ao site… Portugal são 10 milhões. Desde que eu não conte a ninguém, nunca ninguém vai saber.
De entre os múltiplos artefactos possíveis, por uma questão de preço, sensatez e algum humor, compro uma bôa de plumas cor-de-rosa. Uma “paneleirisse”, podem dize-lo, mas hoje em Sydney todos “são” um pouco isso mesmo.
Devo também dizer-vos que como não tinha feito a barba e estava com os calções e as botas do costume, quando me vi ao espelho parecia mais uma estrela Pop britânica dos anos 80 que um panasca do Princípe Real. Obviamente que estou a falar sobre a forma como me vi a mim próprio, e embora honesto, posso estar a ser inconscientemente benevolente.
Decidi começar pela festa Sheraton. Era uma festa de amigos de amigos de amigos de amigos de gente que mal conheço. Quem organizava tinha papel e alugou uma suite para a festa. Apesar das plumas, entrei sem problemas no Sheraton, não só porque hoje em Sydney todos parecem larilas, como sabia intuitivamente, mesmo sem nunca lá ter estado antes, exactamente onde eram os elevadores.: ao fundo e à esquerda . Nas cadeias de Hoteis os elevadores ficam sempre no mesmo sítio: nas grandes corporações internacionais poucos correm riscos com originalidades.
Lá cheguei a tal suite e bati à Porta. O que me esperava foi aterrador: absolutamente compostos, fatinhos business casual e vestidinhos quase pretos, copos de vidro cintilante e muita maquilhagem, uma multidão de 30 pessoas escapava condigna e educadamente ao carnaval.
Estagnado à porta com as minhas plumas cor-de-rosa percebi que o sr. à entrada da suíte não sabia se me devia deixar entrar. Há muito que aprendi que nestas situações a única solução é comportarmo-nos como se tudo fosse absolutamente normal. Olharmos para as pessoas como se TODAS elas se tivessem enganado, como que a dizer: “vai mas é para casa tirar essa camisa façonable ridícula e por umas plumas”.
Assim, em vez de me intimidar, caminhei afirmativamente para uma festa semi-silenciosa de totais estranhos e fui-me apresentar a cada um dos meus espantados anfitriões com a arrogância e simpatia com que um novo director cumprimenta todos os seus funcionários. Esta auto-confiança funcionou e a festa retomou rapidamente o seu desenlace habitual (e previsivelmente aborrecido).
O grupinho a que me colei, perante a minha despudorada, silenciosa e sorridente presença, tentou estabelecer conversa. Uma das senhoras lá engoliu o seu lado mais amarelo e elogiou-me as plumas perguntando onde as tinha comprado.
- Numa sex shop em Kings Cross – expliquei-lhes.
Tive que mudar de grupinho. Há muito tempo que não me divertia tanto. Já “Integrado” noutro contexto paralelo, percebi que ali me iria aborrecer o resto da noite. Decidi ir averiguar a outra festa, a da Pensão que ficava a um quarteirão dali: “ by by, see you later, vou buscar os petit-fours e uns CDs de Fado” e puz-me a andar.
Quando cheguei, a porta da pensão estava aberta. Chegava barulho do terraço onde todos se aglomeravam. Quando subi, senti-me um anormal outra vez, mas ao contrário: senti-me como o Padre Milícias a confessar o Marco Paulo. Uma multidão de malta nova de todos os países, muitos a trabalhar temporariamente em Sydney, celebrava o Amor e a Excentricidade. Quase todos os gajos tinham vestidos da HM que compraram em conjunto e dentro dos quais cantavam hinos à boa vida. Duas lésbicas asiáticas embrulhavam-se desinibidamente num sofá velho ao canto. Três miúdas americanas vestidas de enfermeiras não largavam um coelhinho holandês e dois “gays a sério”, vestidos de super-heróis, exibiam músculos capazes de envergonhar qualquer um enquanto recolhiam assinaturas nos fatos de Lycra.
Esqueci-me do Sheraton. Foi com esta fantástica troupe que fui assistir a Parada Gay (que só por si merece uma crónica). Animados com as bebidas baratas compradas nas Liquor shops passei uma das noites mais divertidas de sempre, até que no regresso, uns tipos se meteram com as “meninas” de HM. Obviamente que as “meninas” de HM não acharam graça e, apesar dos gritos das recentes namoradas americanas (o coelhinho afinal gostava de Banda Desenhada…), embrulharam-se em pancadaria das antigas. Lá veio a polícia, lá foi uma “menina” de HM para o Hospital, lá explicámos ao sr Guarda que éramos tudo gente séria (tarefa fácil para mim a quem bastou tirar as plumas, mas bastante mais difícil para outros, que mesmo já sem os vestidos assinaram as denúncias à polícia de unhas pintadas).
Hoje acordei ainda às gargalhadas. Vou saber do tipo que está no Hospital e juntar-me a malta que como é Domingo vai à Praia curar a ressaca. Percebi que me sobra o resto da vida toda para voltar a aturar festas homogénicas no Sheraton, e que a diversidade não precisa de ser defendida, ela já existe de formas inimagináveis. A diversidade não precisa de ser defendida mas apenas celebrada, por cada um de nós, principalmente na forma como escolhemos, ou não escolhemos, aqueles que nos rodeiam.
Mardi Grass
Um amigo confessou-me uma vez que no seu emprego tomava sempre o café nas horas mais absurdas para evitar as alturas de maior afluência à cafetaria da empresa. Recomendava-me essa estratégia porque tinha descoberto que nessas horas esquecidas descobria e encontrava sempre os seus colegas mais autênticos.
Na verdade, na sua busca de objectivos materiais, subjugados por vidas pouco amplas e construídas sobre amores e amizades condicionais, as empresas estão repletas de profissionais bem sucedidos mas humanamente pobres. Vidas vazias que se avaliam em salários, se definem por griffes e caminham o mais silenciosa e discretamente possível para o envelhecimento e adoecer do resto do corpo.
Penso que já vos falei de um guru na India que questionava os seus seguidores porque se converteram em mendigos da aceitação dos outros. Na verdade, esta imagem do “mendigo” pela aceitação dos outros é uma imagem que poderosamente descreve muito do que assisti no mundo corporativo. Essa necessidade anula a Identidade individual de cada um e, consequentemente, a diversidade que encontramos numa dada sociedade.
Sydney celebra a sua Diversidade no Mardi Grass, marcha a que fui assistir. São milhares de pessoas que durante horas param a Capital da Austrália. Logo a abrir caminho uma multidão de crianças cujos pais são homossexuais. São as “Rainbow Children”, que recebem da multidão que ladeia uma das principais avenidas da cidade uma enorme ovação. Os putos caminham com enorme felicidade e alegria. São umas duas centenas.
Seguem-se uma enorme multidão de outros cidadãos. São a Associação de Pais, Familiares e amigos dos Gays da Cidade. Uma mulher ostenta um cartaz “I love my Gay Son”. É talvez dos grupos mais compactos.
Depois os mais diversos grupos profissionais. O corpo de Bombeiros desfila com um dos seus carros onde em lugar de destaque estão alguns bombeiros Gays e Lésbicas que participaram no combate aos recentes fogos em Victoria, fogos que fizeram inúmeras vítimas humanas e comoveram todo o país. Recebem também eles uma enorme ovação da multidão. Marcham também nos seus uniformes os polícias, médicos e enfermeiros, nadadores salvadores, rangers dos parques naturais, condutores de autocarro e funcionários públicos. Homens e mulheres homossexuais, todos a orgulhosamente representar a sua classe profissional.
Depois é a vez das empresas: Bancos, Televisões, Rádios, Gasolineiras, Empresas de Telecomunicações que patrocinam a presença dos seus funcionários homossexuais e ao mesmo tempo publicitam a sua imagem (A Marcha é transmitida na Televisão Nacional).
Associações de Estudantes, Universidades, representações das diferentes comunidades de Emigrantes, Seropositivos, Associação de Trabalhadores Sexuais, Trangender, Leather e Bissexuais . A multidão anima também com a passagem dos Clubes Desportivos da Cidade (Natação, Rugby, Futebol) e aplaude igualmente associação de Deficientes Homossexuais e o autocarro onde seguem os “Mature Age Gay”: velhotes e velhotas homossexuais que fazem questão de participar mas já não conseguem caminhar os vários quilómetros da marcha.
Mas estou a esquecer-me do Grupo de Católicos Gay, e dos Mulçumanos Gay e dos Judeus Gay e dos Ateus Gay e até dos Maçon Gay, estou a esquecer-me das poderosas Motard que se auto-intitulam de “Dykes with Bykes” (algumas conduzem em tronco nu), e do divertidíssimo grupo de campistas “Camping Out” ( que tem escrito no seu cartaz “camp defined as a row of tents”) .
A passagem destes milhares de pessoas ocupou cerca de 4 horas. É-me impossível descrever aqui tudo o que vi, mas não sobram dúvidas que neste dia, Sydney celebra condignamente a sua Diversidade.
É uma celebração que nos esmaga, porque acredito que no meu país nunca seria ou será possível. Em Portugal a única Diversidade que se celebra é a das escolas de Samba do Alberto João. Acredito que no nosso país, já sem falar dos homossexuais, muitas pessoas não são felizes porque nunca são elas próprias. Não porque sejamos menos corajosos que os australianos, mas porque não temos um sentido de comunidade tão forte como o que aqui testemunhei.
A medida que as semanas foram passando, constatei este forte sentido de comunidade em inúmeros aspectos: desde a admirável forma como a sociedade civil se organizou para apoiar as vítimas dos fogos de Victoria ou simplesmente ao percorrer as actividades expostas nos placard de uma junta de freguesia na vilória mais isolada e provinciana do país: eram inúmeras e quase todas dependentes do voluntariado dos cidadãos.
Não me refiro portanto aos homossexuais, refiro-me a todos: em Portugal não existe qualquer sentido de comunidade. Sem uma comunidade de suporte é muito difícil as pessoas serem elas próprias. Infelizmente esse sentido de comunidade parece estar simplesmente ausente da nossa cultura. Se repararem, excepto algumas Universidades privadas com gestão mais inteligente, em Portugal as pessoas desligam-se em absoluto até das faculdades que os formaram. Outro exemplo: as ONGs portuguesas, ao contrário de muitas europeias, não sobreviveriam com as doações ridículas que recebem dos particulares.
As únicas entidades privadas com uma sólida capacidade de execução em Portugal é a Igreja e os Clubes de Futebol. Reparem bem: a Igreja e os Clubes de Futebol. Que triste em comparação com o que acabei de assistir.
A minha vontade era fazer uma vénia ali mesmo ao povo de Sydney, mas depois…, pensando melhor e reconsiderando onde estava, optei antes por beber mais um Gin e fazer a vénia por escrito.
Os Emigrantes
Nos Jornais Portugueses, pelo menos uma vez por ano, sai um artigo sobre cérebros portugueses a trabalhar no “estrangeiro”. Se não é sobre vários… é pelo menos sobre um deles. Durante o meu curso aproveitei um mês de férias para estagiar no Zoo de Londres. Foi um estágio excelente e também uma oportunidade de estar um mês em Londres (o que, só por si, contribuiu muito positivamente para a minha educação).
Na altura beneficiei, poucos dias depois de ter chegado, da generosidade de uma cientista portuguesa que trabalhava num Instituto adjacente. Tomando conhecimento da minha chegada “obrigou-me” a ficar em sua casa. Como tratei e financiei tudo por mim (não existiam apoios na minha faculdade para este tipo de ousadias) foi uma ajuda muito bem vinda.
Lembro-me que um dia quando jantava-mos os dois a considerei “emigrante” e de como isso gerou uma animada discussão. Na verdade ninguém se gosta de ver catalogado com os negativos estereótipos que a dor de cotovelo dos que “ficam sempre no mesmo sítio” pespegou à palavra.
Durante o discurso a minha anfitriã explicou-me a sua perspectiva: no mundo da ciência o mercado de trabalho é global. Ela não se definia como “emigrante” mas apenas como cientista. O seu país era a Ciência, um país que se subdivide em locais distantes mas todos semelhantes que os não-ciêntistas insistem em dividir em nacionalidades geograficamente distintas.
E é verdade. Nesse ponto a investigação cientifica avançou primeiro que muitas outras áreas e quase todos os Laboratórios, Universidades e Centros de Investigação são multiculturais, multiétnicos, com gente de múltiplos países a trabalhar em projectos comuns. Os portugueses não são mais estúpidos que os outros e por isso sempre desgostei a forma como às vezes a individualidade é glorificada e distanciada o suficiente para que muitos não acreditem em si próprios, o suficiente para que não se lembrem de exigir mais das nossas próprias instituições.
Seria talvez mais interessante que os mesmos jornalistas e artigos averiguassem antes se temos ou não cérebros estrangeiros a estudar e trabalhar em Portugal. Se as nossas Instituições e Universidades são suficientemente produtivas e credíveis para serem apetecíveis aos Inteligentes, para pertencerem ao País da Ciência. Se não, despeçam quem as gere. Despeçam-nos, porque a Investigação é um motor de Desenvolvimento e é de Desenvolvimento que Portugal precisa.
Mas, voltando aos artigos que todos os anos saiem no Jornal, o enfoque é quase sempre pessoal e na verdade todas as pessoas, todos nós podemos ser um bocadinho fascinantes (embora nem sempre pelos melhores motivos). E sendo gente informada, inteligente e culturalmente ampla, não será nada difícil escrever sobre eles. No entanto, quanto mais leio e mais viajo, mais considero que há algo de injusto. Não porque tais artigos estejam errados… mas antes por defeito, por todas as histórias de outros portugueses extraordinários que ficam por contar. É o caso de Sandro ou de Jorge em Sydney.
Se vocês lêem estas crónicas lêem com certeza literatura de viagens. Já repararam quantas vezes os textos se referem à senhora que trabalhava na recepção, ao taxista, ao guia turístico, ao outro turista ou viajante, ao instrutor de qualquer actividade radical, ao agente de viagens ou à hospedeira. Agora que me empenho nestas crónicas garanto-vos que esses são sempre os mais fáceis. Estão ali à mão. Vêem ter connosco
Não tem mal nenhum, nem está errado, mas não deixa de ser um pecado. Ao faze-lo estamos a oferecer-vos uma história “fácil”, que veio ter conosco, provavelmente deturpada pelo contacto diário com dezenas de outros turistas. Para mim, as melhores histórias, as verdadeiramente reveladoras são conseguidas fora do “globo” invisível que envolve qualquer viajante. Exigem um esforço adicional para quebrar essa zona de conforto e avançar em mundos e culturas mais reais e difíceis. São histórias mais raras, mas sempre as que eu prefiro.
Para tentar sair do “globo” do viajante comum, em Sydney decidi ir conhecer o bairro Português, zona onde moram milhares dos nossos conterrâneos e onde se pode comer bacalhau à lagareiro, rissóis, doce da avó e queijo da serra acompanhando com douro e até água do luso.
Embora tivessem sido igualmente legítimos, os meus motivos não foram gastronómicos mas uma enorme curiosidade: os emigrantes na Austrália somam à distância de casa, a dificuldade que representa os custos dos voos. É uma dificuldade real que faz com que aqui as pessoas, ao contrario dos seus homólogos europeus que conduzem até casa no Verão, passem anos sem regressar a Portugal. Queria observar e compreender essa diferença.
Entre os restaurantes mais populares está o “Frango no Churrasco”. É lá que trabalham Sandro e Jorge. São dois tipos da minha idade que escolheram viver aqui. Pergunto-lhes porquê e os motivos que me apresentam são não só verdade… como envergonham. Envergonham não os governos ou os partidos dos últimos anos, mas o país que somos e a qualidade do tecido empresarial que nos rege a economia.
Nem Jorge nem Sandro têem um curso superior mas trabalham e são determinados. Estou a mentir. Sandro esta a tirar um curso superior aqui em Sydney enquanto trabalha. Vai casar dentro de um mês, porque embora seja “apenas” empregado de mesa e pague os seus estudos, já juntou o suficiente para comprar a casa onde vão morar. Com um pouco de sorte ainda vai dar para esticar e ir ao Mundial de Futebol na África do Sul. Mas para merecer tudo isto, Sandro teve que não aceitar o seu destino de paquete no Hotel Penta em Lisboa. Foi preciso acreditar o suficiente nas suas capacidades para vir viver sem nada nos antípodas do seu país.
O percurso de Jorge é semelhante com a diferença que já casou, já comprou um apartamento, formou-se este ano como Professor e aguarda a sua colocação para mandar vir o primeiro puto. Ambos merecem. Aquilo que os trouxe aqui, todas as incertezas, a solidão da inimaginável distância, o árduo trabalho, tudo foi superado não por uma ambição meramente monetária mas sobretudo pela noção de justiça, por saberem que podiam ser muito mais que um Paquete de Hotel explorado pela mediocridade de todos nós.
Estes tipos sim, arrancam-me a minha admiração e merecem artigos no expresso, pelo menos uma vez por ano. Se os jornalistas se derem ao trabalho de os procurar vão encontrar não os estereótipos que os que “nunca saíram do mesmo sítio” pespegaram à palavra, mas homens inteligentes, informados e culturalmente amplos. Pelo menos o suficiente para se recusarem à anulação de sonhos que lhes foi vendida como normal e incontornável.
Na verdade esta crónica é uma crónica apenas sobre justiça. Sandro e Jorge merecem tudo e muito mais do que já conseguiram. A Austrália merece-os, merece o seu valor, determinação e autoconfiança pela forma como os acolheu, como lhes deu todas as oportunidades de se realizarem, de explorarem as suas capacidades. E Portugal, o Hotel Penta e todos nós, merecemos te-los perdido, a eles e a tudo o que gente assim determinada é capaz de realizar.
Os Cientistas, quando acaba a bolsa, muitas vezes regressam. Estes não. Estão magoados. Não acreditam em Nós. Querem melhor para os filhos, que estes cresçam num país que não lhes tente anular os sonhos de forma sufocante e aparentemente incontornável. Estes tipos são uma perca para todos nós porque as sociedades prósperas são feitas de gente que arregaça as mangas e consegue o que quer. Mas o português continua a pensar que não, iludido por cursos superiores, nomes de família, amigos da terra, companheiros do partido ou do futebol. E enquanto vamos aceitando passivamente que cortem os braços a quem arregaça as mangas, que um Paquete ganhe 500€ e não seja nem venha a ser nada mais do que isso o resto da vida, que o desemprego seja mais um instrumento de disciplina, enquanto nos vamos consumindo em invejar e anular os sucessos individuais apenas por incapazes de o interpretar como sucesso de todos nós, vamos estagnando mais fundo o nosso país no seu próprio lodo. E o Mundo galopa cada vez mais depressa.
Quando olho à forma como a nossa sociedade se estrutura, muitos dos valores me parecem ainda demasiado medievais. O mais importante, o mérito, parece ainda excluído. Talvez por ser o valor mais trabalhoso, o mais exigente dos valores porque é apenas e afinal uma forma de verdade… e a verdade, já foi cientificamente provado, muitas vezes é lixada.
O Amor
O Amor bate a porta quando menos esperamos e, ás vezes, é à porta da roulotte.
Estava em Portland, entre Adelaide e o início da Great Ocean Road. Cansado de varias horas de condução desajeitada (não estou habituado a guiar à esquerda) parei para dormir numa quinta em que os donos, um casal idoso e caloroso, cuidam de varias vacas, muitas ovelhas, e cinco roulotes envelhecidas que alugam como se fossem quartos de hotel. Com cozinha equipada e todos os confortos possíveis, estão dispostas em circulo num dos campos da quinta (entre a casa e o pasto das ovelhas).
Fui a cidade comprar Gin e algumas mercearias e depois liguei o Pc para passar algumas músicas enquanto aproveitava o facto de ter cozinha para me entreter a cozinhar um jantar mais tuga. Faz frio e chove lá fora. Na Australia aproxima-se o Inverno que é tanto mais rigoroso quanto mais a sul nos encontramos.
Foi então que bateram à porta. Não era a chuva… não era o vento… nem era uma ovelha: era o Amor. Pediu-me lume para o jantar que estava a cozinhar com a amiga na sua roulotte. Tudo teria ficado por ai… não fosse o Gin ter começado a disparar baboseiras de cima da prateleira.
Já depois do jantar, com a amiga deitadinha na roulote ao lado, o amor voltou a bater a porta. Vinha ter com o Gin e eu aproveitei a boleia. Quietinhos para não acordar nem a amiga nem a água tónica (que quando se mexe faz uma barulheira do caraças) entegámos-nos aos deliciosos e inesperados prazeres que só se descobre quando o Amor bate a porta de uma roullote.
Recomendo.
O Cemitério
No cemitério de Coober Pedy encontramos garrafas vazias. Não que as campas estejam mal cuidadas. São simples: uma cruz de madeira ou márbore que assinala um rectângulo de gravilha num deserto isolado no centro da Austrália.
O calor e o sol de tão abrasadores, obrigam os locais a escavarem a suas casas debaixo da terra, tarefa em que são exímios pois muitos estão aqui em busca de enriquecer escavando o deserto em busca de opalas. O cemitério está por isso quase sempre deserto tirando uma mãe que todos os dias cuidada única campa que completa de márbore construiu para a filha que a estrada matou quando se dirigia a Adelaide, a cidade mais próxima e que fica a milhares de quilómetros de distância, para buscar o seu vestido de casamento.
Fora as lágrimas ao fim do dia desta mãe inconformada, o cemitério permanece vazio no silêncio do deserto, entre o vento seco e a irrealidade da ausência de tudo.
Mas, por vezes, a mesma solidão que acompanha os mineiros na sua luta individual é interrompida por uma visita aos amigos que já partiram. Sobem ao árido cemitério com algumas cervejas e honram os seus companheiros com uma ou outra que abrem e enterram invertidas na gravilha da campa. As que sobram, bebem-nas eles, conversando com os mortos o que precisa sem conversado, ou confessado, ou partilhado ou até discutido.
E quando terminam regressam às casas que escavam na terra, ou mais provável, ao bar onde bebem com os amigos que ainda vivem e com os quais partilham a vida difícil dos que ambicionam.
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