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Crónicas da Indonésia

(em Construção)

  • O Canhão

    Em Jakarta há um costume em desuso mas ainda prevalente que é curioso. As moçoilas casadoiras são quase todas muçulmanas e não podem portanto entregar moedinhas ao santo António na esperança de terem homem.

    Não. Em Jakarta não há cá nada dessas coisas. Talvez pela sua beleza e incrível simpatia, as muçulmanas de Jakarta não sentem falta de tais santos e poupam essas moedinhas.

    Com homem garantido, fica por assegurar a fertilidade, uma gravidez saudável e um parto fácil. Para isso, as mais supersticiosas tem o costume de se escarrapachar em cima de um canhão.

    Há muitos nesta antiga colónia holandesa, a maioria de origem nórdica. Mas, o canhão escolhido, aquele que todas acreditam ser garantia de bons augúrios às partes baixas, é um canhão isoladamente português, curiosamente bastante mais volumoso que os restantes.

    As autoridades fecharam-no num museu inibindo tais manifestações profanas… mas… volta e meia, com ou sem avisos a dizer “não mexer”, lá salta uma indonésia pra cima do nosso canhão.  

    A Família do Sr. Badush

    -É a minha filha! – explica-me Badush, um indonésio invulgarmente anafado que se sentou ao meu lado interessado pelas minhas fotografias.

    Estou no templo Pura Desa em Ubud. É noite de lua cheia e decorre uma cerimónia. Depois das orações e das ofertas, há danças e música no interior do templo. Um grupo de cerca de 100 mulheres canta e coreografa uma história da mitologia hindu. A filha de Badush é uma das principais.

    - Aquela é a minha mulher… – indica o meu novo amigo apontando uma senhora também anafada que sentada no chão participa nos cânticos - e ao lado é a minha irmã ! – sorri Badush.

    - aquela é a mulher do meu amigo… e as duas atráz são as minhas sobrinhas –

    Pergunto-lhe quem é o actor principal, o único homem no grupo:

    - é o meu primo.

    - Badush! Mas tu tens a familía toda a cantar ! – exclamo

    - Almost – responde ele orgulhoso- fui eu que criei este grupo. Começámos este ano  –

    É um grupo composto só por mulheres, excepto o primo que suspeito fazer imitações da Madona nos intervalos  (Crónicas do Irão). É uma actuação esplendorosa, embora ainda incerta, aquela a que se empenham as cerca de  100 familiares, vizinhas e amigas de Badush. Cantam e dançam de forma (quase) sincronizada quase uma hora seguida. No final, o homem pede-me a minha opinião.

    Desconheço porque carga de água Badush entendeu que eu devia de perceber de Danças mas  limitei-me a ser bom rapaz e aceitar o meu papel de incentivo às artes nativas. Respondi por isso com uma frase que aprendi com uma agente de viagens que sempre a ela recorre quando lhe pedem a opinião pessoal sobre um destino que desconhece mas precisa vender: “Muito Bonito!”

    Pela minha generosidade, tive direito a ser apresentado a 35 das 100 Intervenientes. Uma trabalheira agradável, sendo que de todas a mais radiante com o meu aperto de mão foi, sem duvida, o primo.

    Na ilha do Robison Crusue

    Na IC19, na 25 de Abril, na CREL quando há acidente numa qualquer manhã fria de inverno, todos nós já sonhámos ter uma ilha tropical e não fazer mais nada que não estar lá. A Indonésia é feita de 17.000 ilhas. Quando soube de uma que podia ser só minha, saltei para o barco disposto a meter férias das atribulações diárias que acompanham uma Volta pelo Mundo.

    Não havia luz eléctrica mas um gerador assegurava energia entre as 18h e a meia-noite. Não havia água que não a recolhida da chuva e uns baldes para a transportar para a cabana. Não havia menu mas café todas as manhãs, comida todos os dias, cerveja toda a noite. Não havia mais ninguém na ilha. Apenas um mar imenso, uma paisagem deslumbrantemente azul e uma colina verdejande e arredondada de onde se vê toda a ilha à nossa volta e o recife de coral que a contorna.

    Haviam ainda  três sexta-feiras indonésios mas havia um problema seríssimo: na ilha não havia Gin tónico. Os amigos fazem-nos falta. Eu até podia ficar ali um mês com os meus sexta-feiras indonésios e iludir o coração com uma ou outra aventura passageira. Estar por uns tempos naufragado e não emviagem. Mas sem o meu Gin não. Temos que ser uns para os outros e decidi-me por isso a voltar ir ter com ele.

    O problema é que além da colina, da areia branca, do mar azul e do coral, chegaram as nuvens. Muitas delas. Quando fui confessar o meu desejo de regressar a um dos sexta-feiras, ele disse-me:

    -Se queres mesmo ir, amanhã temos que sair cedo. Vem aí uma tempestade.

    - Coisa séria ? - perguntei eu,

    -sim.

    -Mas é muito perigoso ? – disse-lhe já a ponderar adiar a viagem –

    - O problema é que com as ondas entra água no motor e ele avaria. Sem motor e com estas ondas o barco vira. – O vento tinha-se  entretanto  juntado às nuvens.

    - Isso já te aconteceu alguma vez ?

    - três vezes.

    - E como fizeste então ?

    - Não há problema: eu sei nadar. O problema é os turistas!  Ficam sempre assustados e muito chateados pois perdem malas e documentos.

    Perguntei –lhe então se tinha um motor sobresselente e respondeu que não. Perguntei onde estavam os coletes de salvação e apontou-me uns bidons vazios.

    “ok, com dois daqueles bidons já me safo.” Em último caso podia sempre amarrar um bidon a  cada braço como se fossem braçadeiras das que põe nos putos na Praia das Maçãs (ao que chegamos quando estamos emviagem….) Podia arriscar ficar, mas receei que o tempo só iria piorar nas próximas semanas. E eu estava sem Gin.

    Na manhã seguinte amarrei as malas ao barcote para não voarem e eu agarrei-me às malas para não voar eu. O equipamento fotográfico num saco isolante à prova de água. Desta vez nada de burkas: só eu,o passaporte e os cartões de crédito todos embrulhados em sacos de plástico como aprendi nessa memorável viagem em busca  do Albuquerque (Crónicas do Irão).

    Gostava de ter a pinta dos tipos que naquele anúncio já muito velhinho  vão no veleiro Old Spice com umas gajas fechadas no porão a cantar ópera e a tocar férrinhos . Tenho que vos confessar, que a minha figurinha entre as ondas, embrulhado em sacos plástico  e com os bidons debaixo de olho… deve ter sido bem mais, colossalmente mais, ridícula. Mas, estou a viajar sozinho e por isso aviso desde já, que quando me perguntarem, a tempestade vai virar tsunami e eu ia afinal de peito feito na proa do navio a explicar ao sexta-feira como ele tinha de fazer.

    Foi na verdade um terror, com as ondas enormes, espessas e conturbadas à nossa espera logo depois do Coral. Entre solavancos, abanões e chapadões de água, o barcote aguentou-se e lá chegou, horas depois, ao seu destino.

    Já seco, com o gin ao meu lado, a partilhar mais um por-do-sol inebriante na baía de Luang Bajo, prometi-lhe que os sumos de manga e ananás não significaram nada mais que breves “aventuras sensoriais”  e que a Bitang era uma loira agradável, um pouquinho alegre é certo, mas nada mais do que isso. Prometi-lhe que  a ilha ficava adiada para a nossa segunda volta ao mundo e que nunca, mesmo nunca mais,  iria para uma ilha deserta sem ele.

    - Estou feliz por estares novamente emviagem - segredou-me o Gin enquanto me levava para o quarto.

     

    A Enfermeira Holandesa

    Quando queimei a mão foi a sério. Pousei-a por acaso num motor a trabalhar e não protegido. Foi uma queimadura de 2º Grau. Não vi estrelas: foram galáxias inteiras. Pus a mão no mar para acalmara dor que irradiava braço acima e me angustiava a respiração. O mar ajudou.

    Quando cheguei  (isto ocorreu numa viagem de barco), arranjaram-me gelo que coloquei assim mesmo sobre a mão. A dor era tanta que já não sentia nada.

    Ali, naquele fim de mundo, não há nada que se assemelhe a cuidados médicos aceitáveis. Os primeiros-socorros que trago comigo não cobrem situações tão complicadas como a que receei  ter-me sucedido.

    Sentado na praia, enquanto o barco desembarcava carga e outros passageiros, pensei contratar o mesmo barco de volta a um sítio de onde pudesse voar para Bali ou Java onde poderia ter o devido acompanhamento. A saúde é uma prioridade. Estava eu nestas decisões logísticas, a imaginar quantos dólares iria necessitar, quando ela apareceu. Não me apercebi o quanto era bonita porque estava contra o sol forte do meio-dia.

    - Are you ok ?- perguntou-me

    Chamava-se Linda e nunca um nome fez tanto sentido. Loira, com uns olhos enormes, azuis e vivos, pediu-me para ver a mão.

    Nem o bikini molhado disfarçava os seu profissionalismo. Era enfermeira e holandesa, a única ocidental naquela ilha e praia tropical. Num segundo fez-me passar de sentir miserável a sentir-me  o James Bond.

    Linda estava de férias na Indonésia depois de meses a trabalhar na Tanzânia.  Com ela trazia um enorme estojo de primeiros-socorros e toda a sua experiência profissional.  Cremes anti-sépticos, analgésicos, gazes e ligaduras específicas para queimaduras, Linda tinha tudo. A humanidade da sua generosidade e dedicação fazem-na ainda mais bonita.

    Rápidamente percebi que era mais seguro confiar em Linda que num qualquer desconhecido, e provavelmente menos formado, médico indonésio. Com a mão ligada passei os dias naquela praia intercalando as visitas da minha enfermeira com uns gins gelados que me ajudavam a meditar no sabor das coincidências.

    Em poucos dias fiquei quase  bom e operacional. Quando reencontrei Linda uns dias depois já a podia fotografar. Descobri que além do enorme estojo de primeiros socorros trazia também um enorme e bonito namorado holandês. Esta crónica é para eles, uma forma de agradecer como tornaram que a parte chata desta viagem (todas as viagens têm uma parte chata) fosse rápida e suave.

    Na India diriam que o meu Karma naquele dia em que me queimei era prosseguir caminho, experimentar  a fragilidade mas seguir caminho. Tentaria argumentar, provavelmente sem sucesso,  porque estava alguém tão experiente e tão equipado naquele dia e naquela hora numa das praias de uma das milhares de  ilhas da Indonésia.  Mas, mesmo que encontra-se algum argumento estatisticamente válido, ficará sempre por explicar como o significado do nome que lhe deram quando nasceu lhe acompanha em perfeita sintonia as formas e os gestos.

    Os Dragões

    São cerca de 3000 os Dragões mas vivem apenas em duas ilhas pequenas que dividem com os Rangers do Parque Natural de Komodo. Recebem no máximo algumas dezenas de turistas por dia, na maioria mergulhadores que passam em veleiros alugados para mergulhar nesta zona extraordinária da Indonésia.

    A experiência que qualquer um deles vos pode relatar não difere assim tanto do filme Parque Jurássico não fosse a extraordinária beleza selvagem e tropical das ilhas e o impacto que esses gigantescos lagartos causam.

    Com a pele dissimulada, dissolvem-se na terra, nas pedras e na folhagem. Têm uma língua longa, bífida na ponta, que desenrolam com facilidade e ruidosamente. Matam, e matam a sério, geralmente no início ou ao final do dia, e fazem-no com uma brusca e única dentada. Geralmente extremamente lentos, quando atacam fazem-no com uma inesperada explosão de energia e rapidez. Basta-lhes uma dentada porque a sua saliva está impregnada de bactérias mortíferas que rapidamente infectam o búfalo ou qualquer outro animal escolhido. A infecção, rápida e letal, torna-os depois presa fácil para o Dragão e o seus companheiros que iniciam o seu banquete com o animal ainda vivo. A natureza é cruel, principalmente no Parque Jurássico.

    Todos aqui se dirigem para ver os Dragões e todos descobrem o quão bela é a extraordinária paisagem intocada das ilhas. Estou na época das chuvas e por isso o verde é luxuriante. Dragões, Cobras e Víboras, exigem toda a nossa atenção ao caminhar por aqui, o que só é permitido com um dos Rangers do Parque.  Do topo da ilha a visão é de cortar a respiração, com um ondulado verdejante salpicado por pedras enormes, palmeiras isoladas e riachos que desembocam num mar incrivelmente azul e pontuado por muitas outras ilhas.

    Os Dragões são um animal possante, com movimentos calmos e calculados. O seu olhar réptil não cria qualquer empatia, nem o amarelo da  língua que desenrolam ruidosamente. Talvez seja esse o seu fascínio, a presença e simultânea distância, a frieza do seu sangue que se pressente no primeiro minuto, a cruel nobreza com que governam o seu território.

    Tal como no Parque Jurássico, há registos de turistas atacados e Rangers mortos. São cerca de 3000 os Dragões e por isso equiparam-se ainda ao número de humanos que os visitam anualmente. Aposto o que quiserem em como um deles escreve scripts para cinema. 

    Kawa Ijen

    Kawa Ijen é um vulcão na estremidade de Java. Há algumas excursões que o incluem no seu roteiro, acredito que mais pela comodidade da sua proximidade a Bali que pela sua extraordinária beleza. Não é no entanto um Vulcão muito visitado. É de uma beleza mais difícil e não goza da merecida popularidade do místico Gunung Bromo. Soma-se a isto que a subida ao topo é íngreme e exige um par de horas. No entanto, vencidos estes obstáculos, a vista do seu topo é fenomenal.

    O meu guia de viagem não falava em Kawa Ijen.  Não planeava conhece-lo, mas no topo do Gunung Bromo conheci um vulcanólogo amador alemão. Há muitos sítios onde se pode conhecer um vulcanólogo amador alemão, sendo que o topo de uma cratera é sem dúvida o melhor de todos.

    Chama-se Thomas. Foi Thomas quem me falou na existência de Kawa Ijen  e nessa mesma tarde estava a caminho. Chegámos já era noite e dormimos na base do carreiro que leva a cratera e que necessitaríamos subir na madrugada seguinte. Acordámos poucas horas depois , às três da manhã e iniciámos a ascensão ao Vulcão. No topo o cheiro a enxofre é preponderante e o silêncio é absoluto. Sentimo-nos também nós em silêncio.

    Pouco  depois, da noite surge e passa o primeiro trabalhador. São cerca de 300. Gastam a vida a descer ao Vulcão onde enchem de enxofre cestos que carregam de regresso ao topo da cratera e depois até ao sopé da montanha.  Cada homem chega  acartar cerca de 90 kg. De chinelos, sem máscaras, sem sequer protecção para os ombros onde assentam os cestos, estes homens queimam os pulmões e a vida em poucos anos. Todos tossem consecutivamente.

    Recebem ao quilo transportado. Conseguem descer no máximo duas vezes por dia e começam ainda de madrugada, descendo ao vulcão iluminados por tochas de pano encharcadas em gasolina.

    Nesse dia, impreparados, não os acompanhámos. Mas no dia seguinte sim. Regressámos com mais água  e bolachas e cigarros para oferecer.  Descemos com eles, ainda noite profunda, ao fundo da cratera.

    O impacto do que vi e experimentei permanece ainda em mim por compreender. O caminho é difícil, psicologicamente exigente, mas possível. Ingreme e vertiginoso, não deixa de ser realizável, especialmente durante a noite em que não se vê  a altura a que estamos. Á medida que descemos somos iluminados por uma inesperada parede de azul irreal que lembra a aurora bureal. São gases que dançam luminosa e giganticamente contra a parede negra do interior da cratera. O silêncio é então substituído pelo ruídos desta luz azul a saír da terra e pelo som metálico dos trabalhadores que aquela hora já se  empenham com ferros a extrair pedaços pedregosos de enxofre. Cada trabalhador surge dentro de um clarão alranjado devido à luz que emana das tochas de fogo que os acompanham.

    Sentei-me simplesmente sem saber o que pensar. Á medida que o sol vai nascendo, a claridade apaga o azul fosforescente e ilumina o lago extenso que fica à direita da coluna de enxofre. Os trabalhadores prosseguem os seu esforço mortal, aceitando com enormes sorrisos os cigarros e bolachas que com eles partilhamos. Por vezes o vento muda e vi-me algumas vezes  inesperadamente rodeado de um fumo sulforoso denso e amarelado que me queimava os olhos, a pele  e a respiração. Uma dessas vezes, agressividade do fumo desorientou-me, e foram eles que me conduziram para segurança.

    Há todo um silêncio, um terror e uma beleza que acompanhou aqueles momentos que é avassalador. Aqueles homens estavam a morrer à minha frente por um salário que e considerado bom na Indonésia mas que é na verdade ridículo. São gente muito simples que nos conquista rápidamentea empatia. Respiram de uma forma acre e rasgada, os ombros inchados e deformados. O seu silêncio obriga o nosso próprio silêncio. Alguns de tão magros e estafados dão vontade de nós próprios lhes acartarmos o enxofre, tarefa que seria de qualquer forma impossível. Quando testei o peso de um dos cestos, nem o consegui levantar do chão.

    Comi e fumei com eles, e no final da manhã regressei com Thomas ao topo da Cratera. Já lá estavam uma dezena de turistas. A forma desinteressada e afastada como fotografavam e simultaneamente ignoravam os trabalhadores foi chocante. Como se tivessem medo de os conhecer. A morte desfilava à sua frente e eles nem a denunciavam. Não eram homens que ali passavam , mas apenas parte de uma experiência num dia de férias. E bastava um cigarro, o que resta da garrafa de água, ou mesmo e apenas um sorriso. Mas nem isso.

    Foi com vergonha da minha “civilização” que desci com Thomas do vulcão. Nunca encontrei no mundo tão grande monumento à Indiferença.

    A Mochila

    A senhora do restaurante não me largava, desdobrando-se em atenções e elogios corporais. Volta e meia cai-me uma Tiazoca mal amada na sopa… mas esta de Tia nada tinha. O restaurante era banal, frente a um terreiro onde passaria o meu autocarro para Bondowoso.

    Claro que um dos principais elogios era que eu sou muito grande e muito forte, acompanhados por uns apalpões nos braços e umas graçolas em Bahasa para as amigas.

    “querida, já estás um bocado entradota para estas cenas…” disse-lhe eu para comigo complacente no meio do festival. Depois percebi que a espertalhona não me queria para ela mas para uma das filhas que já estavam bem ensinadas na arte de tentar mudar de vida e de passaporte.

    A mais grandota lá se emancipou, tentando um Inglês básico a mando da mãe. Esta, entretanto, tentava exageradamente levantar a minha mochila para demonstrar o seu argumento.

    No meio daquela palhaçada toda, a mãe, no desespero que eu desse mais atenção ao prato de arroz frito que à filha, convence a desgraçada a por a mochila às costas. A miúda obedeceu, e… talvez tenha calculado mal os passos, …ou incorporado em demasia o papel que lhe foi atribuído pela mãe: só sei que no segundo seguinte, quando tirei os olhos do arroz, voava uma Indonésia atracada á minha mochila para o cimento do terreiro.

    Foi só o susto. A miúda estava amolgada mas mantinha os dentes todos. A mãezinha, para cúmulo, achou graça. Eu confesso que também.

     

    Uma Noite na Cadeia

    Faz parte. Na verdade até dá um certo colorido a esta volta ao mundo.  Tal como o Vale e Azevedo, devo desde já deixar claro que não tive mesmo culpa nenhuma. Os meus únicos crimes nestes meses foi andar de mota sem carta e dizer que não falo inglês quando me falta a a paciência para aturar algum palerma. É verdade que me podem acusar de ter contribuído para o incremento de algumas taxas de adultéri, mas quase sempre só o soube depois. Não, tal como o Vale e Azevedo eu estou e continuo inocente.

    A culpa foi do polícia que me me viu quase a adormecer na berma da rua. Nos últimos dois dias tinha acordadoàs 3 da manhã para subir  a pé ao Kawa Ijen. Nesse mesmo dia, uma vez no topo, tinha ainda descido à cratera para fotografar os homens do Enxofre. Acresce à altitude e ao declive do caminho, o frio e o ar saturado de enxofre que irrita os olhos e dificulta a respiração.Estava estafado, quase a dormir, aguardando numa estrada parada pelo único autocarro que passava nesse dia para seguir viagem.

    O Sr. Guarda tinha 25 anos e falava um inglês rudimentar. Despertou-me e sentou-se ao meu lado a conversar. Vendo-me estafado, fez o convite:

    - If you want you can rest in my very litle place.

    Recusei a princípio mas acabei por aceitar. Estava a cair para o lado e era mais seguro adormecer no “Very Litle Place” que na estrada ou num autocarro atulhado de estranhos.. O “Very Litle Place” era afinal a esquadra, e quando me atirei para a “cela” dormi umas cinco horas profundamente. Quando acordei já era noite. A porta estava aberta. Saí à rua onde o Sr. Guarda falava com um colega. Explicou-me que não havia mais autocarros, mas que me levaria ele próprio no dia seguinteà cidade mais próxima. A noite podia ser ali na Esquadra. E assim foi. Mesmo receando algum esquema para me sacar dinheiro, não me restavam outras opções.

    A esquadra não tem água quente e a esta altitude faz frio de noite. Juntei-me por isso aos polícias que todas as noites guiam até às nascentes de água quente nas montanhas para se lavarem e descontraírem. Estas “piscinas” naturais podem ser visitadas pelos turistas durante o dia mas estão fechadas à noite. Mas Felix, o chefe da esquadra, guarda uma chave para que possam ali se deslocar todas os fins de dia. Oi o remédio perfeito para três dias fisicamente esgotantes.

    Como agradecimento, ofereci a Felix e outro polícia o jantar num restaurante local e seguimos noite dentro a beber cervejas clandestinas na minha cela (não tinham Gin e a Indonésia é maioritariamente mulçumana).

    Na manhã seguinte, Felix como prometido, levou-me  à cidade, mas antes parámos em sua casa para eu tomar o pequeno almoço e conhecer o seu filho, a sua mãe e a sua mulher.

    No Irão pediram-me pare ter cuidado com os desconhecidos. E tento ter. Mas a verdade é que o mundo está pleno de gente muito boa, que no momento mais inesperado nos acolhem e nos cuidam e forma impossível de retribuir.

    A minha noite na cadeia foi das mais memoráveis de todas. Não foi preciso fugir para Londres e contratar advogados. Bastou apenas não ter medo de conversar com quem se sentou ao meu lado.

    Mina

    Mina é uma orangotanga e é lixada. É uma macaca possante, até nem muito mal parecida mas com muito mau feitio. O mau feitio só por si, especialmente quando é no feminino, já não é nada fácil. Se lhe somarem tratar-se de um orangotango é possível imaginar porque Mina se converteu no terror da selva em Bukit Lawang na Sumatra.

    Ao pé de Mina, o Ness nos lagos da Escócia ou o Big Foot nos Himalaias são uma mera brincadeira. Mina existe mesmo, é enorme e ataca regularmente turistas e guias que se aventuram na selva nesta região da Indonésia. Já não há um guia que não ostente as feias cicatrizes das suas dentadas e todas as expedições partem com um saco de comida extra na esperança de acalmar a fúria da besta caso ela  apareça. Quando chegarem, e até ao dia da partida, ninguém vos vai falar de Mina, excepto um ou outro ocidental que regresse da selva aterrorizado.  Só vão saber de Mina antes de partirem para a Selva, depois de terem pago e se perguntarem porque aquele saco extra de comida.

    Mina aparece regularmente . A administração do parque já por duas vezes caçou Mina e a levou para quilómetros de distância já que Mina, com as suas fúrias, ataca e assusta os turistas que são quase a única fonte de rendimento em Bukit Lawang. Mas nada feito. Mina encontrou sempre o caminho de volta, e semanas depois, já estava novamente a aparecer de improviso nos trilhos da selva que começa do outro lado do rio que contorna a aldeia.

    O Orangotango é um animal enorme e ágil, quase demasiado parecido connosco.  A palavra em si significa (homem da floresta). Estão praticamente extintos e apenas aqui e no Bornéu podem ser observados em liberdade. Mas ao contrário, por exemplo, dos Gorilas no Rwanda em que a visita aos mesmo é dispendiosa e está seriamente regulada, na Sumatra os Orangotangos estão a Saldo. O Parque Natural está entregue ao desprezo e aos interesses ilegais dos madeireiros.  Os guardas são mal pagos, mal preparados e facilmente corruptíveis. Todos os habitantes de Bukit Lawang se definem como “Guias Oficiais” e partem para a selva com os turistas que neles acreditam.

    No meu hotel encontrei um técnico de som de Barcelona que subornou o parque com 100 USD para passar cinco dias com os Orangotangos. Não sabia nem aprendeu nada sobre estes animais. Não tem sequer, nem ganhou, umas luzes de Biologia. Precisava urgentemente de uma história porreira para contar na cabine de som ou a qualquer cabeleireira  facilmente impressionável e conseguiu-o com 100 euros. Isto não teria mal de maior, não fossem estes animais tão susceptíveis ás nossas doenças: um banal vírus da gripe pode dizimar uma população inteira. E esta é uma das duas únicas no mundo que sobreviveram até hoje. A população de orangotangos desde que o governo abriu o Parque aos turistas não para de diminuir de ano para ano.

     Como cheguei com tempo tive tempo para me ir apercebendo e informando sobre tudo isto.  Quando chegou a minha hora de partir numa expedição, decidi não ir. Já vi dezenas de Orangotangos em inúmeros Zoos. No Parque assisti á alimentação dos semi-selvagens que ali cuidam e de manhã, da varanda do meu quarto vislumbrava os que desciam aos rápidos que separam a selva da aldeia. Não preciso de mais. Como é obvio o meu ego protestou bastante, mas com a ajuda do Gin expliquei-lhe que a selva do outro lado do rio não lhe pertence, que estamos só de passagem, que há mais selva na outra metade do mundo que nos falta. Expliquei-lhe que o outro lado do rio pertence a uma orangotanga lixada chamada Mina, de quem, mesmo sem a ter conhecido, me tornei fervorosamente adepto.

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