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Portugal

Crónicas de Timor

  • Um Ponto Incontornável

    O avião circula a ilha pronto a aterrar no meu destino. Estou a minutos de pôr os pés em Timor Leste, uma terra distante e desconhecida por quem, como muitos outros, me indignei e lutei com as únicas armas que me eram possíveis: a Voz e a Presença.

    Talvez Timor seja apenas um arquétipo dos nossos melhores valores, dos mais profundos. Talvez seja um sonho ou uma história mal contada. Não sei. Sei que é o país mais novo do Mundo, o único pelo qual eu lutei pela independência, um dos que mais curiosidade me desperta.

    É um destino caro, pouco preparado para o Turismo e com poucas ligações acessíveis para um tipo de mochila às costas, mas é também para a minha alma um ponto incontornável e inegociável da minha volta ao Mundo. Simplesmente tinha que vir aqui.

    Se calhar, todos nós que saímos à rua em 1999, temos que vir aqui. Como então, a nossa Voz e a nossa Presença são das únicas armas que temos para ajudar este povo e este País. Venham: já sabemos que funcionam.

    O Natal em Timor

    O sino toca a anunciar o início da missa de Natal. É 24 de Dezembro, quase 8 da noite. Percorro o caminho que se inicia na pousada portuguesa abandonada desde 75 no alto da falésia, e desço à aldeia que atravesso pelo caminho pedregoso.

    Com lanternas ou velas, com os seus melhores trajes, as famílias numerosas saem de suas casas em madeira e palha e seguem conversando baixinho pelo mesmo caminho em direcção à Igreja que fica no extremo oposto,  à entrada da aldeia, antes da bifurcação que desce ao rio.

    Se esquecermos as estrelas acima das palmeiras e das árvores gigantescas, é uma noite escura e quente. Todos me cumprimentam com um tímido mas caloroso “Bô Noiti” enquanto tento como eles evitar os buracos no caminho.

    Cheguei à aldeia de Tutuala pelas cinco da tarde. Por esta altura já todos sabem que sou Português. Quando cheguei, de boleia na parte de traz de um camião, estavam a decorar a Igreja e decidi ficar para passar aqui a noite de Natal. Pedi conselho e ajuda e logo chamaram Salvador que guarda a chave da nobre e decadente pousada portuguesa. Foi a mulher de um outro homem, Gonçalo, quem improvisou o meu jantar: cerveja quente, ovos mexidos, arroz e, no fim, um café forte e aromático.

    Na pousada, como em toda a aldeia, não há água. Não pude lavar-me a mim nem à roupa que trago vestida. Perguntei a Gonçalo se podia ir assim à missa e respondeu-me que “Deus hoje recebe-nos a todos.”

    À medida que me aproximo da Igreja  escuto o burburinho crescente da aldeia que ali se acomoda. Embora quase em ruína a Igreja está adornada com todo o amor da povoação que a cobriram de fitinhas coloridas. Luzinhas chinesas iluminam um presépio pintado em tamanho real que protegem da noite na mesma forma como protegem as suas casas: folhas secas de palmeira.

    Há buracos no tecto e falham janelas, mas uma lâmpada eléctrica sustentada por fitas de Natal e serpentinas  assegura alguma luz. Não há cadeiras de plástico para todos mas algumas tábuas corridas superam também essa dificuldade. As crianças ou ficam com os homens de pé, ou se sentam á frente, dos lados do Altar imaculadamente branco.

    Há apenas um microfone, que serve para o Padre, o coro e as leituras. O coro, composto por miúdas adolescentes, todas com saias tradicionais e T-shirts brancas publicitárias das mais variadas proveniências, tenta em conjunto com o órgão eléctrico desafinado afogar o ruído do gerador. Mesmo sem janelas, a multidão enche de um calor suado e tropical a Igreja. As músicas são animadas e a missa é dita em Tetum, a língua tradicional, excepto o Pai Nosso que  é rezado em Português.

    Á saída, já com a missa terminada, o ambiente no terreiro em frente é de festa. O órgão ainda toca lá dentro e cá fora quase todos fazem questão de se aproximar e de me desejar Boas Festas. Fazem-no uns com um solene aperto de mão, algumas com dois dignos beijinhos, uns poucos com um caloroso abraço. Todos o fazem em português, enternecedora e comoventemente na minha língua, como que a dizer-me que estou em casa, como se a distância e quase meio ano em viagem não fossem nada.

    Nunca pensei que um Natal tão difícil pudesse ser tão feliz, tão humano e tão pleno. Nunca pensei que o Natal pudesse ser tão Timor.

    O Guerrilheiro

    (Ao Sérgio Figueiredo e ao Luís Novo com quem, após uma tarde de café na baixa, parti de improviso a Madrid para protestar junto à embaixada da Indonésia. Ao Lucas e  sua mãe , que com as suas sanduíches alimentaram três jovens idealistas e famintos )

     Se lhe perguntarem, Narciso define-se como um agricultor. Minimiza-se perante os que mandam argumentando que não tem estudos. Não aceito os seus argumentos e persisto: “A Liberdade, a Democracia e a Independência têm que ser conquistadas todos os dias. Não acredito que tenhas abandonado essas batalhas”

    O velho guerrilheiro conta-me então a sua guerra. Conta-me a sua luta. Os olhos brilham-lhe quando lhe pergunto como foi. Puxam-me uma cadeira e servem-me um café. Narciso fala-me de como ficou combatente e de como deixou de o ser. Fala-me da bala que o atingiu e de como a tiveram que retirar no mato.  Fala-me da dor. Fala-me de como as povoações os apoiavam, de como quando um companheiro caía no mato e não lhes sobravam forças para o enterrar ou simplesmente levar a sua arma e as suas munições que assim deixavam para traz. Fala-me de como o povo então batia as montanhas e depois enterrava os seus mortos. Conta-me de como sempre alguém pegava na arma do homem perdido e os procurava e se juntava a eles. Fala-me de como a luta continua, continua sempre. Fala-me das ambições e frustrações destes anos de Independência.

    Eu falo-lhe que sei. Falo-lhe que em Portugal sabemos o que os Indonésios fizeram, como chorámos com eles no massacre em Santa Cruz e de como os Portugueses e o Mundo se rende à nobre coragem com que, apesar de todas as ameaças, o seu povo saiu à rua a votar massivamente a sua liberdade. Na altura dizia-se em português, a língua proibida nas ruas de Dili “Agora posso morrer: deixo aos meus filhos uma Pátria”

    Conto-lhe das manifestações em Portugal junto à ONU e à embaixada dos Estados Unidos, dos milhares de Portugueses que foram a Madrid protestar junto à embaixada da Indonésia. Quando ele me pergunta se eu estive lá, eu posso dizer que sim, e ele diz-me o Obrigado mais poderoso que já escutei.

    Pede então ao filho para ir buscar a bandeira da FRETILIN, hoje um partido mas na altura a única esperança de Liberdade, e pede-me para tirar-mos uma fotografia juntos.

    O Obrigado que escutei , era para todos nós. Foi a oferta mais sublime que alguma vez recebi e que fica comigo para sempre, porque me encheu de uma força incomparável , porque me torna impossível  vacilar a voz perante as causas a que outros chamem impossíveis.

    O obrigado que escutei, era para todos nós, continua aqui nestas montanhas, a aguardar a visita daqueles que desse lado do mundo se esquecem do Povo Extraordinário que conseguimos ser.  

    As Palavras

    Às vezes há palavras que nos dizem que guardamos. Não sabemos bem porquê, mas guardamos. Dias ou anos depois, quando finalmente as entregamos a outro alguém, aí sim, elas ganham todo um sentido. Como se apenas se tivessem servido de nós para chegarem a quem de direito.

    Barry é australiano e casou com uma timorense: vive numa ilha de acesso difícil ao largo de Dili. Recentemente Barry e Lina tiveram um filho que para surpresa de ambos, afinal eram dois: gémeos.

    Barry janta comigo e conta-me a sua história. Com um dos filhos nos braços, embala o outro no berço que não é mais que uma rede mosquiteira suspensa no tecto. Fala-me dos seus receios e ambições para os filhos inesperadamente permaturos naquela ilha remota. São inúmeras as questões e dificuldades. Estamos na varanda da sua cabana, junto à praia e ao mar que quase se anula ao pôr-do-sol. Barry fala-me de opções e possibilidades e depois pergunta-me o que penso eu. Só então me recordei de uma frase que no meu emprego anterior escutei a uma Psiquiatra  com quem trabalhei: “ os filhos só precisam de duas coisas: regras e amor incondicional.”

    Foram essas as palavras que entreguei a Barry. Percebi nesse mesmo instante, anos e quase meio mundo depois que tinham finalmente chegado ao seu destino

    Sem Sorrisos

    microletÉ australiana e estudante de Relações Internacionais. Esteve um ano a estudar Bahasa (língua oficial da Indonésia) em Jakarta e provavelmente para enriquecer a sua cultura política, passou por Timor Leste antes de regressar à Austrália.

    Está hospedada no mesmo Hotel que eu e descubro-a no mesmo “autocarro” que  tomei a caminho da Baucau. Conversamos. Quando lhe digo que sou português suspeito  surpreendido que isso a irrita e começa a contar-me maravilhas do povo Indonésio.

    A conversa era tão focada e os argumentos tão ostensivos que concluo para mim próprio que  a rapariga tem uma visão muito básica do Mundo e dos portugueses (e por isso um futuro curto na profissão que escolheu).

    Depois pensei melhor e condescendi que se calhar ela acordou demasiado cedo e eu ainda estou a ressacar dos gins de ontem.  Apago por isso este primeiro episódio e, tolerante, mudo  de assunto, de língua e de interlocutores, questionando banalidades em português aos sempre simpáticos timorenses que viajam connosco. Mais irritada fica então a Loira. Desata a falar indonésio e a competir pela atenção dos gentis locais. Durante 24 anos o Português era proibido: falar a nossa língua dava cadeia. Hoje todos os timorenses compreendem Bahasa.

    Percebo que para aquela mulher eu personificava, com a minha nacionalidade e proximidade às pessoas, qualquer coisa que lhe era contrário, negativo, incómodo e irritante. “Esta não vai mesmo nada longe” voltei a pensar para comigo.

    Chegados a Baucau, e quando já descíamos a pé para a praia, paro para fotografar uma família. Recebo atrás das costas comentários sobre a legitimidade das minhas fotografias. Como leio nas entrelinhas que está deserta de me dar uma aula de moral anglo-saxónica sobre como lidar com os “nativos”, respondo-lhe simplesmente com um dos sorrisos no ecrã da digital. A conversa não foi mais longe porque segundos depois o dono do café “Torres Novas” veio explicar-me que a distância à praia era bem superior ao que supunha.

    A australiana manda então parar uma carrinha cheia de timorenses que seguia para uma outra cidade. Aluga-a pela importância absurda que lhe pedem e que obviamente supera a quantia paga pela totalidade de trabalhadores, mulheres e crianças que a ocupam. Estes são assim convidados a sair pelo ganancioso condutor que devolve às pessoas as importâncias que lhe tinham pago pelos bilhetes.

    O condutor deixa o seu povo infamemente na beira da estrada, a australiana segue para a Praia e eu fico mais português, mas sem sorrisos para fotografar.

     

    Os Missionários

    Quando João Paulo II chegou a Timor Leste, então ocupado pela Indonésia, não beijou o chão como sempre o fazia quando chegava a um novo país. Lembro-me da vaga de desilusão que percorreu Portugal. A bem da diplomacia são por vezes sacrificados valores essenciais. Nunca compreendi essa cobardia, mas se João Paulo II, apesar de ter sentido na primeira pessoa o sofrimento que acompanha uma ocupação, não se ajoelhou a beijar um chão oprimido, há Padres, Irmãos e Missionários que o fazem todos os dias, que todos os dias beijam com todo o seu corpo o chão pedregoso deste país que permanece um dos mais pobres do mundo.

    Estes homens e mulheres não rezam missas à factura, não pregam sobre futilidades ortodoxas nem organizam excursões a Fátima para ajudar a pagar o carro novo (da paróquia). Aqui as vocações e as palavras parecem ser mais genuínas. A fé parece quase acessória no sentido em que buscam Deus essencialmente pelo que oferecem ao outro. E oferecem muito.

    São a meu ver seres superiores.  Vivem anos da sua vida sem energia eléctrica, água canalizada ou qualquer aproximação ao nosso conforto. Vivem sem simplesmente a companhia da sua família, distantes dos amigos de sempre.

    Encontrei dois destes seres em Atauro, uma ilha ao largo de Dili. Foi até recentemente uma ilha de prisioneiros, para onde tanto portugueses e indonésios desterraram gente inconveniente. Hoje a Ilha continua a ser uma ilha de “prisioneiros”: vivem ali mais de 10.000 pessoas, mas o único barco para Timor chega e parte apenas ao Sábado. Aqui,  quando o mar está bravo, há quem morra na praia sem conseguir chegar a Dili onde existem recursos médicos. Mas o que descobri  é que Atauro é também uma ilha de liberdade, a que nasce do trabalho missionário de Dunalva e Chico, dois construtores de um mundo melhor.

    Dunalva é brasileira, uma mulher bonita, que embora jovem parece ter tido a plenitude como companheira de viagem desde sempre, desde o Nordeste até à ilha de Atauro.

    Perguntei-lhe o que embarcou do Brasil que mais a ajuda no seu dia-a-dia em Timor. Responde-me, com um daqueles sorrisos que só existem desse lado do atlântico, que é a Alegria. Esta mulher, que acartou as pedras com que construiu a sua casa em Atauro, diz-me também que é “Sertaneja”, filha de pais agricultores e parte de uma família numerosa o que lhe permite muitas vezes estabelecer laços de empatia com o seu novo povo. Eu penso que é mais do que isso. Tudo em Dunalva transparece que é daquelas pessoas que nunca diz não a um desafio (sentem-se na parte de traz da sua motoreta e percebem ao que me refiro). É essa certeza e segurança que transpira que com certeza cativa os que a seguem.

    Também o Padre Chico viveu no Brasil. Tem 72 anos e está em Atauro à 5. Quase todos os outros se dividem entre o norte de Itália e a cidade de São Paulo. É um homem que acredita no poder das comunidades. Conta-me como os sul americanos estão a mudar o seu continente com uma força genuína que nem os partidos ou as cores políticas conseguem acompanhar.  Fala-me do seu percurso e de como sente saudade de viver numa grande cidade “A cidade amadurece as pessoas”.

    Mais do que experiências difíceis, classifica-as como fortes, as únicas que podem originar o verdadeiro conhecimento. Numa ilha em que não há nada, água ou luz ou estradas decentes, o Padre Chico avançou extraordinariamente para além do vulgar. Trabalha com os surdos, aqui frequentes devido à pesca artesanal feita com arpão a profundidades exageradas e ensurdecedoras. Pretende a recuperação do campo de futebol e criou uma biblioteca deliciosa onde guarda o que lhe oferecem e o que encontra sobre Timor e a Ilha onde vive.

    O Padre Chico consegue falar de Atauro como se aqui tivesse nascido. Uma ilha pobre que apenas serviu de desterro e prisão aos antigos colonos, ganha na sua sala, na baixinha cadeira de plástico onde se senta, a luz de um romance viciantemente elaborado  pelas origens, vidas e destinos dos seus prisioneiros.

    Dunalva e Chico, embora de religiões distintas, colaboram para o bem comum da sua comunidade. Por isso acredito que são superiores. Superiores a todos nós, superiores aos nossos medos e necessidades, superiores a manifestações primárias de fé, superiores às hipocrisias das Instituições, superiores à Diplomacia, superiores porque verdadeiramente mais próximos de Deus.

    João Paulo II não beijou o chão de Timor, mas há quem o faça todos os dias.

    Ilha de Atauro

    Mensagem aos Nossos

    Timor é um pequeno país com um enorme potencial de desenvolvimento. O seu petróleo, terra fértil, praias paradisíacas e mares profundos (cruciais para a navegação de submarinos nucleares entre o Pacífico e o Sudoeste Asiático) tornam-no apetecível para a comunidade internacional. A concorrência entre as nações para ganhar protagonismo e providência no seu futuro é um facto.

    Neste panorama competitivo entre países de gigantesca envergadura política e económica,  como a Australia e a China, Portugal é um empecilho, a nossa língua e proximidade ao povo timorense um obstáculo e a moralidade do nosso desempenho, antes e depois da Independência, uma inconveniência.

    Os chineses, na sua angústia por recursos naturais, seguem aqui uma política idêntica à que tão proveitosamente implementaram em África. Perto do aeroporto de Dili, o novo Palácio oferecido ao Presidente testemunha a sua determinação.  Já a Australia parece  empenhar-se em reduzir Portugal,os portugueses e a língua portuguesa,  a mais um dos culpados dos problemas deste país.

     Um guia turístico australiano descreve com as seguintes palavras a presença portuguesa em Timor:  “ One other International power hás very dirty hands in East Timor:  Portugal ” . O autor desta frase é Tony Wheeler o próprio fundador da “Lonely Planet”, um homem que se pretende o primeiro amigo de Timor Leste e que escreveu por isso o primeiro guia de viagem deste país. O que Tony Wheeler parece esquecer é que se há mãos sujas em Timor são as australianas: antes de sangue, agora de petróleo timorense.

    A história lembra a todos que a invasão de Timor pela Indonésia foi realizada com conhecimento e aprovação da Austrália. A Austrália foi também dos poucos países que reconheceram Timor Leste com a 27ª província da Indonésia. Se somar-mos a esses factos a forma como o Governo Australiano negociou a exploração do petróleo timorense  como contrapartida da sua ajuda económica , Tony Wheeler e os seus compatriotas permanecem bastante longe de poder caminhar nas ruas de Dili com absoluta dignidade.

    De facto, as mãos portuguesas hoje em Timor também estão sujas, mas de Suor. Portugal continua a ser o principal doador deste país em valores e em recursos humanos. Os timorenses sabem-no. Os australianos também e tentam talvez por isso reduzir-nos, maximizando os dividendos políticos que obtêm dos recursos que alocam a Timor Leste.

    A minha vivência em Cuba durante o 11 de Setembro e a recente  experiência profissional em Marketing  anularam-me a inocência quando encontro argumentos que se repetem demasiadas vezes, por diferentes pessoas e em diferentes contextos mas sempre recorrendo às mesmas palavras.  Esses argumentos que nos atingem podem ser estruturados de forma bastante simples, como aliás se exige a qualquer boa campanha. Peço-vos que me acompanhem neste meu exercício.

    A mensagem central é a de que “Portugal foi, é e será um obstáculo ao desenvolvimento de Timor Leste”. Para fundamentar esta mensagem oferecem três argumentos:

    1. “Portugal foi um Obstáculo ao Desenvolvimento de Timor Leste”: A ausência de estradas e Infra-estruturas públicas em Timor é atribuída à colonização Portuguesa e não à massiva destruição efectuada pelas milícias indonésias após o referendo. Todos esqueceram, embora as ruínas prevaleçam, as escolas, mercados, hospitais, postos de electricidade e tudo o que foi destruído. A nossa presença distante e felizmente branda é assim descrita como tristemente desinteressada e negativa.
    2. “Portugal é um Obstáculo ao Desenvolvimento de Timor Leste”: A competência e os métodos dos nossos voluntários são denegridos. Foram os portugueses quem salvaram a vida a Ramos Horta no recente atentado à sua vida, e fizeram-no perante a passividade das forças australianas que argumentam a sua cobardia alegando que as nossos homens são menos exigentes no  respeito aos direitos humanos.               Aqueles que sabem falar com os Timorenses, que saiem de Dili e que viagem de Microlet e não apenas em Jipes com ar condicionado,  sabem que os voluntários portugueses são dos mais respeitados de todos. São tidos como os mais competentes, os mais amados, vistos como aqueles que verdadeiramente dialogam com as pessoas e as comunidades. É preciso que se saiba que esse respeito e esse carinho com que somos recebidos não se deve  a uma colonização passada, não se deve a termos sido por algumas décadas a sua única voz  e nem sequer ao facto dessa voz ter sido consistente e consequente. É importante que se saiba que esse carinho nasce sobretudo  da reputação de extrema competência, dignidade e confiança conquistados por anónimos portugueses, entre GNR, Polícias, Professores, Médicos, Enfermeiros, Advogados, Juízes, Missionários e muitos outros.
    3. “Portugal será sempre um Obstáculo ao Desenvolvimento de Timor Leste”: Como foi recentemente publicado num Jornal de referência australiano, a Língua Portuguesa foi eleita como principal obstáculo ao desenvolvimento de Timor Leste. Foi um argumento  que pegou. A comunidade Internacional em Dili acredita neste argumento  conveniente para o insucesso dos seus projectos. Escreve-o provavelmente nos relatórios com que justifica a sua incompetência perante os  financiadores. Comentam entre si, nas aulas de mergulho e de Yoga com que queimam o tempo que nasce de projectos  convenientemente parados, que em Timor o Português é uma língua de apenas alguns políticos e ricos em Dili, especificamente dos exilados que voltaram de Portugal. Mais uma vez, é preciso que se saiba que não é. Em todas as casas em que estive  alguém falava português e que o constatei em casas bastante pobres a dias de viagem de Dili. Conheci informalmente uma responsável do Banco Mundial que me explicou como era difícil para os seus funcionários o facto de todos os documentos oficiais terem de ser em Português. Lembrei-me mais uma vez de Cuba e de como a Comunidade Europeia só contratava profissionais que falassem espanhol e perguntei-lhe se o Banco Mundial tinha como critério de contratação a capacidade de falar Português. Respondeu-me que não, que era difícil encontrar pessoas competentes e disponíveis a falar a nossa língua. Pergunto-me, e pergunto-vos, se será assim tão difícil encontrar no gigantesco mundo lusófono economistas e gestores competentes dispostos a viverem, com despesas pagas, num país tropical a ganhar uns milhares de USD mensais.

    Estes três argumentos foram-me afirmados por diferentes pessoas nos mais variados contextos. A inocência dos mesmos deixo à vossa consideração. Para mim, neste país fértil de futuros promissores há quem nos queira sujar com os seus erros. E estão a conseguir: em Timor há muita areia nas praias com que nublar os olhos de quem está longe e por isso não quer saber mais. Estão a conseguir, não junto do povo deste país ainda débil e politicamente imaturo, mas junto de decisores mundiais que podem influenciar os seus provavelmente impreparados governantes.

    Em Portugal podemos continuar a ignorar este ataque e esta batalha de interesses geopolíticos, continuar naíves e a medir as acções dos outros pela nossa desinteressada generosidade. Podemos ganhar consciência do que se está  a passar e acreditar que nos podemos defender simplesmente com a Verdade e a nossa competência. Todos os que têm alguma experiência profissional exigente sabem que a verdade e a competência, infelizmente, não chegam. As mentiras podem ter pernas curtas, mas não deixam de fazer o seu caminho.

    A presença de Portugal em Timor  não pode ser apenas uma enorme lista de boas acções. O que já foi feito, tudo o que estamos a realizar e tudo o que nos propomos a concretizar carece de ser devidamente englobado, empacotado e clarificado de uma forma simples , apelativa, internacionalmente perceptível e eficiente. Precisamos também nós de uma mensagem clara, uníssona e repetível, que passe de boca em boca nas mesas dos cafés de Dili, nos emails das ONGs e nos jantares dos funcionários da ONU,  repondo a Verdade junto daqueles que tantas vezes  influenciam quem decide.

    Devemos fazê-lo sobretudo pelos Timoreneses: Timor tem tudo a ganhar em não perder como aliado primordial um país geográficamente distante, culturalmente próximo e económicamente não agressivo. Rodeado por gigantes, é fácil cair e voltar a ser, embora com uma bandeira própria, nada mais que uma província de uma qualquer potência regional.

    A Entrevista que Não Fiz

    Xanana Gusmão casou  com Kirsty Sword, uma professora primária australiana. Trocaram correspondência quando Xanana estava preso em Jakarta, apaixonaram-se e casaram. Sword, é a principal fundadora e promotora da fundação ALOLA, uma ONG privada com amplos recursos e diversos projectos em Timor Leste. Não  conheci  Sword. Estas são as perguntas que não lhe fiz:

    - Sabe falar Português, a língua oficial de Timor?

    - Publicou em Inglês uma Biografia dos seus anos mais recentes. Foi um livro que escreveu para os Timorenses ou  para os Australianos ? 

    - Tratando-se da biografia da primeira Primeira Dama de Timor, pretende editar o seu livro em Português?

    - No seu livro descreve como conseguiu passar um computador para Xanana quando este estava preso em Jakarta. Refere como o ensinou a trabalhar com o mesmo por meio de papelinhos e como a partir daí trocaram disquetes e emails com mensagens encriptadas para a resistência . Tudo isto decorreu sem a mínima suspeita dos serviços secretos indonésios. Fale-nos um pouco dessa espantosa experiência !

    - Uma das suas iniciativas mais louváveis como Primeira Dama foi a criação da Fundação ALOLA. A sua Fundação tem-se empenhado nos direitos civis  e igualdade das mulheres e das crianças em Timor. A maioria dessas  mulheres e crianças vive em povoações onde ainda não chegou electricidade ou água canalizada. Vivem sem acesso à saúde ou a uma educação eficiente. Quais são para si as prioridades para Timor Leste ?

    - Como avalia estes 10 anos de Independência ?

    - O crescimento da corrupção em Timor tem sido apontado como um problema pela comunidade Internacional. O que pensa sobre este assunto ?

    - Muitas ONGs e Organizações Internacionais recorrem a Auditorias externas e independentes como garantia de transparência. Tratando-se a ALOLA uma Instituição gerida pela esposa do antigo Presidente e actual primeiro ministro de Timor, quais foram as medidas que  implementou para validar a isenção da gestão da sua organização?

    - Quando os seus filhos estão doentes, trata-os em Dili ou leva-os para Darwin na Australia? O que tem feito a ALOLA pelas mães timorenses que não têm capacidade económica para fazer o mesmo ?

    - Um dos mais recentes projectos da sua Fundação, iniciado com fundos doados pelas Australian Defense Force, pretende, e passo a transcrever da sua Newsletter  “ to increase the capacity of mothers and nannies to care for children from 0-3 years old. In this trainning they will learn how to read stories to children, show them pictures, sing, play and do others activities with them to support child´s education”. Acredita de facto que as mulheres Timorenses precisam de uma ONG para aprenderem a ser Mães?  

    Dili- Hoje há quem acredite que os primeiros humanos chegaram à Austrália a partir de Timor. Os australianos e os Timorenses têm portanto uma origem comum. O que pensa da forma como os colonos europeus lidaram com os aborígenes australianos?                            

    - Muitas vezes estas comunidades aborígenes, marginalizadas e empobrecidas, cederam grandes parcelas de terra ao governo australiano a troco de um novo campo de futebol ou hospital, uma ninharia se tivermos em conta que esses terrenos se destinaram muitas vezes à exploração de minério ou alguma nova auto-estrada. Acha que se pode fazer um paralelismo entre essa realidade e a actual intervenção humanitária da Austrália em Timor (considerando as contrapartidas exigidas na exploração do Petróleo  Timorense) ?

    - Timor Leste é um país independente. A Austrália continua subjugada à Rainha de Inglaterra. Acha que o povo Timorense pode ensinar algo aos seus compatriotas ?

    Confesso que não pensei em mais perguntas.  E porque as escrevi aqui? Há perguntas  que não devem nunca deixar de ser feitas.

     

    Um Novo Ano

    Embora 9 horas mais cedo, 2009 começou entre abraços portugueses. Foi no quartel da GNR em Timor que comi as 12 passas.

    Os nossos homens celebram nas instalações construídas com os seus próprios braços o início de um novo ano. Convidam para a sua festa vários dos portugueses e brasileiros  que aqui  trabalham. Ao me conhecerem e ao saberem que estou por aqui sozinho estendem a  sua generosidade ao, como me chamam, “primeiro turista português”.

    Fazem-no apenas porque partilhamos a mesma nacionalidade e estou como eles a milhares de quilómetros de casa. É um gesto de genuína solidariedade que não surpreende: os portugueses que temos aqui , GNR e muitos outros, conquistaram em Timor uma reputação que enche de orgulho e alegria o coração de qualquer um de nós. Imaginem como se sentiriam  na Final do Euro caso Portugal não tivesse perdido para a Grécia… e imaginem sentir isso todos os dias.

    Estou portanto entre os meus, ou como aprendi na Malásia (Crónicas da Indochina) entre os da minha “raça”. Há por isso Raposeira e Passas para fazer desejos.

    Sempre fui ousado nos meus desejos. À um ano pedi nesta mesma data “muitas viagens” e aqui estou.  Este ano não abandonei a ousadia mas fui mais preciso nos meus sonhos: como aprendi em 2008, todos os dias há sonhos que acontecem e todos os desejos têm uma parte do seu caminho que depende exclusivamente de nós. Espero estar sempre à altura da parte que depender de mim e entrego à esperança a outra parte.

    Para estarmos à altura de tudo o que depende de nós são requeridas inúmeras capacidades. Penso que só uma não se aprende facilmente: a coragem. Esse é o motivo da minha admiração pelos GNR e restantes voluntários portugueses em Timor: eles oferecem a todos nós a dignidade de estarmos como país à altura dos desafios e compromissos que nos cabem na construção de Timor.

    A outra parte, repito-me, entrega-se à esperança. Disseram-me os Irmãos José Martins e João Felgueiras, Jesuítas portugueses que aqui vivem desde 1973 sobrevivendo e participando em tudo o que aconteceu, que não é uma esperança assim tão difícil. Se os conhecerem, 5 minutos que sejam, se lerem o seu livro sobre estes anos, sabem que lhes deve caber sempre a eles a última palavra.

    Quanto a mim sigo para mais um ano. De 2008 guardo muitas recordações, tanto más como boas. Se me perguntarem, acredito que o mais importante é exactamente o facto de serem muitas e saudavelmente imprevisíveis. Um ano que comecei em Moscovo e que terminei em Dili, em que abandonei gente pequena e fui abraçado por gente muito maior é um ano que vou sempre acarinhar. Mas é Passado. Venha daí 2009 !

     

    Dia 1

    É dia 1 de Janeiro de 2009. É dia de festa e o povo de Dili passeia em família, em grupos de amigos na ampla marginal sobre a qual se debruça toda a cidade. Também eu aí me sento ao entardecer numa amurada perto do Porto. Uma Mãe timorense coloca inesperadamente o seu filho no meu colo e pede-me para tirar uma fotografia. O Pai, feliz, tira a fotografia com  um pequeno telemóvel.

    Hoje penso que foi o melhor sinal de bom augúrio para o ano que agora começa. No momento,  senti apenas saudade do Joaquim a quem dedico esta viagem. O Puto olhava-me com o mesmo  olhar calmo e curioso. Não era o Joaquim mas também o era. Afinal, todos somos feitos uns dos outros.

      

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