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Crónicas do México

  • Destino: Cidade do México

    Voo 821 para México City: “It´s a pleasure to have you onboard” é a frase standard com  que a hospedeira nos recebe antes de “desenrolar” as normas de segurança.

    Somos apenas duas dezenas de passageiros no Boeing da United Airlines. Sendo a cidade do México o foco primário da Pandemia de Gripe que acaba de surpreender o mundo, é uma cidade  proibida, da qual todos querem sair, uma cidade  para a qual se ameaça inclusive o encerramento dos voos.

    Todos os outros passageiros parecem-me mexicanos de regresso  a casa. Eu não estou de regresso. Estou a chegar. Antes de todo este drama da Gripe tinha planeado incluir o México na minha volta pelo mundo. Não gosto de mudar de planos, mas mais: tenho um amigo à minha espera na cidade e não gosto de desiludir os meus amigos.

    Existe de facto risco nesta decisão, mas a decisão de não ir não me reduz a médio prazo  a possibilidade de contrair a dita Gripe que já é mundial e que já prolifera nos Estados Unidos onde estive cerca de um mês. E medidas todas as coisas, e lidos todos os artigos online conclui que existe uma probabilidade significativa de tudo correr bem tirando a certeza que num próximo jantar de despedida, a D. Guilhermina vai adicionar muitos mais países à lista de promessas (Crónicas do Irão).  

    “Muchas grácias por nos ter concedido el privilégio de sue preferência” diz a mesma funcionária no sistema de som do avião após a aterragem. Lembra-me com estas poucas palavras a doçura que o Espanhol adquire deste lado do mundo. É uma doçura que tranquiliza. Depois de atravessar sozinho o enorme corredor destinado a estrangeiros na Alfândega do Aeroporto, encontro Andreas e seu Irmão Diego que me recebem com um Abraço.

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    O Vírus da Conveniência

    Quando me sentei a ler emails no PC de Andreas, aproveitei para verificar as notícias da CNN sobre a Gripe.  O que li deixou-me estupefacto: o correspondente descrevia num artigo sensasionalista sobre a cidade do México uma realidade que não existe, um antagonismo a tudo o que eu próprio tinha testemunhado.

    Em Portugal o curso de Medicina Veterinária inclui Epidemiologia e Saúde Pública. De tudo o que aprendi nesses anos, em nada o Governo Mexicano está a falhar. Na verdade, as autoridades comportam-se com uma coragem provavelmente difícil de conseguir na maioria dos países. Deixem-me reportar-vos aquilo que presenciei:

    • A distribuição de máscaras individuais é massiva, gratuita e evidente.
    • Há postos móveis de combate à Gripe por toda a cidade, devidamente assinalados que prestam informação a quem o desejar e realizam uma primeira triagem. Não são necessários quaisquer documentos ou pagamento: qualquer um pode entrar e ser atendido na hora.
    • Há indicações claras para a população não tomar medicamentos caso surjam sintomas: todos sabem que em caso da mínima dúvida se devem dirigir a um posto móvel ou hospital onde podem obter toda a medicação gratuitamente.
    • Os jornais publicam, entre literalmente dezenas de artigos informativos, receitas para fazer creme desinfectante para as mãos e ideias para entreter as crianças que são aconselhadas a permanecer em casa.: cozinhar em família, ver filmes e organizar debates em torno dos mesmos, ensaiar uma peça de teatro, etc.
    • Todos os restaurantes, escolas e universidades, organismos públicos  e centros comerciais estão encerrados.
    • Manifestações públicas estão canceladas. Isto inclui as Igreijas de todas as religiões a quem foi oferecido espaço televisvo para transmitirem os seus cultos e mensagens educativas aos seus crentes.
    • A informação chega aos placards de publicidade e ao quadros electrónicos de trânsito que se converteram também eles em vectores de informação à população.

    Acredito que como a CNN descreve, existam pessoas em pânico, mas todos os que até agora conheci, embora preocupados, limitam-se a seguir calmamente as instruções  anunciadas. Nos espaços abertos desta cidade muito mais verde do que eu imaginara, ainda é possível encontrar gente sem  máscaras, casais de mãos dadas que se beijam sem os pudores de todos os outros países que visitei nesta volta ao mundo. São beijos bonitos e tranquilizantes. Não vencem o vírus mas anulam a histeria mediática que parece crescer mais que qualquer pandemia.

    São beijos que destroçam a inquieta ambição de um jornalista ocidental que provavelmente escreve escondido num quarto de hotel somando às palavras fotografias tiradas à saída do metro ou na rua do Hospital General.  Quanto mais leio o artigo mais me indigno. Talvez o pobre homem esteja apenas a cumprir ordens, a tentar não perder o emprego porque a companhia para que trabalha conta com o medo e com a facilidade com que o mundo ocidental se deixa seduzir com o que quer que seja que alimente os seus complexos de superioridade para incrementar as audiências.

    Talvez seja difícil para o mundo ocidental acreditar que somos mais globais do que imaginamos, que a ciência sabe e pode menos do que nos convencem, sobretudo que se o excelente trabalho deste país  for reconhecido e implementado nos restantes focos da epidemia estão implicados custos económicos demasiado difíceis de aceitar para uma doença que matou 7 pessoas numa população de 20 milhões.

    Os custos das medidas adoptadas para um país como o México são assustadoras: perca de milhões de dólares e a curto prazo de 2.2 milhões de empregos. A economia neste país, como todas as outras, já estava destroçada pela recessão. Se reflectirmos que tais medidas nos protegem a todos nós o México merece mais da comunidade internacional que manifestos de incompetência nos nossos noticiários.

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    Os Sabores do Amor

    Arturo  Ocampo tinha 11 anos quando durante as festas da aldeia de TeHuixtla um comerciante de passagem ao pueblo lhe ofereceu o seu primeiro trabalho. O velho fazia e vendia gelados de baunilha a que aqui chamam “neve”.  O miúdo aceitou trabalhar todo o dia, fazendo e congelando litros de gelado. Quando no final da jornada foi buscar o seu soldo, o velho ofereceu-lhe apenas um gelado, um dos que ele mesmo tinha feito.

    Arturo regressou a casa decepcionado. Triste e decidido a não voltar queixou-se a sua mãe que lhe disse: “Volta amanhã. Não te importes com o que ele te paga e aproveita para aprender tudo o que  puderes”.

    Assim foi. Durante toda a semana de festividades Arturo trabalhou com o velho fazendo litros e litros de gelado de baunilha, recebendo em troca nada mais que um copo da “neve” que ele mesmo tinha feito.

    No ano seguinte, quando o velho regressou à aldeia para as Festas, procurou novamente ao jovem rapaz. Arturo informou-o que o ajudaria mas que exigia ser pago em pesos. O velho recusou e Arturo não aceitou o convite: já tinha aprendido.

    Arturo cresceu procurando soluções para a vida em outras ocupações e outros lugares. Tornou-se carpinteiro. Emigrou para os Estados Unidos vivendo por uns anos em Los Angeles. A vida correu menos bem a teve que regressar ao México. Sem encontrar trabalho regressou a Tehuixtla, à agora vazia casa de seu Pai.

    Percebeu depressa que os ocasionais trabalhos de carpintaria não lhe chegavam para sobreviver. Lembrou-se uma manhã de recomeçar a fazer “Neve”.  Recordando o que aprendera começou a fazer gelados de baunilha que vendia à porta de casa aos fins-de-semana e dias feriados. E foi por um gelado de baunilha que um dia conheceu Maria e nunca mais dela se despediu.

    Maria que antes vivia na Cidade do México, juntou-se a Arturo na casa grande e branca de seus pais. Com o seu sorrido terno encheu as salas vazias de vida com dois filhos tardios que vejo correr alegremente no pátio detrás da banca de gelados.

    Quando à três anos a doença roubou as pernas e com elas o sustento do carpinteiro, Maria ensinou-lhe os sabores do Amor. Os gelados que eram antes monótonamente de Baunilha (sabor que somos ainda obrigados a provar ) ganharam nas mãos lutadoras de Maria novos sabores: Morango, Limão, Mamay, Elote, Manga. E é com Baunilha e Morango, Limão e Mammay, Elote e Manga que  sustentam os filhos que vejo correr.

    E enquanto Arturo, imobilizado num pequeno banco ajuda Maria na preparação dos gelados que ainda vende à sua porta, Maria percorre em bicicleta os pontos mais longínquos do pueblo vendendo gelados com as cores e sabores com que encheu a vida de Arturo, o rapaz  a quem um dia sua Mãe disse: “Volta Amanhã”.

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    A Devoção

    Para chegar a Chamulca basta pagar 10 pesos num dos “colectivos” que partem do mercado de San Cristobal de Las Casas. Chamulca é uma aldeia nas colinas circundantes. As suas ruas enchem-se de descendentes dos Mayas que parecem imunes nos seus trajes tradicionais à indumentária ocidental que já rendeu quase todo o resto do mundo.

    Estou aqui para visitar a igreja do povoado que me recomendaram como uma das experiências mais fascinantes do México. Não me enganaram. Na igreja de Chamucla a vivência espiritual que nos espera afasta-se original e irreverentemente de toda a ortodoxia católica.

    A igreja é ampla e obscura. Não há bancos. O chão está coberto de ramos de pinheiros cujo odor agradável enche todo o espaço. Santos coloridos, pouco perfeitos e pouco conhecidos, alinham-se em caixotes de cristal de diferentes tamanhos e debruados ostensivamente em prata dourada. Dispostos acompanhando os lados da Igreja e preenchendo o Altar, observam atentamente as demoradas orações e cerimónias dos devotos que aqui rezam. Não são permitidas fotografias: os crentes acreditam que roubam a alma aos santos roubando-lhes os poderes.

    Em família, os indígenas erguem pequenos altares no chão junto dos santos predilectos ou mesmo a meio da igreja. São inúmeras velas de diversos tamanhos que nos  iluminam alinhadas em filas sucessivas. Por fim, sentam-se em grupo no chão, alinhados em frente ao seu elaborado altar . O mais velho, homem ou mulher que lidera a família, entoa então rezas em cadências monocórdicas e ritmadas. Os outros assistem  zelando por que todas as velas se mantenham acesas. Por vezes uma galinha é sacrificada no lugar, outras apenas “oferecida” e sacrificada quando regressam a casa.

    Garrafas de refrigerante enchidas com uma bebida local são também abençoadas e oferecidas. Parte é derramada no chão verdejante da Igreja, outra guardada e outra bebida entre todos num pequeno copo de vidro assinalando o final da cerimónia.

    É uma bebida poderosa. Depois do deslumbre que nos invade quando entramos nesta Igreja sentei-me junto a uma destas famílias observando de uma distância respeitosa como decorria a oração que vos descrevi. No final, o velho que rezava indica ao filho mais velho que me traga o copo para que também eu beba. Tomei apenas um trago, mas segundos depois parecia que tinha bebido três Gins seguidos. Aquilo era uma Bomba. Continuo convencido que por muito alto que seja o teor alcoólico daquela bebida “sagrada”, a coisa deve ter à semelhança do Absinto um levezinho efeito psicotrópico.

    Para tirar dúvidas, e como os indígenas não tinham pastelinhos de bacalhau, tomei outro trago que logo me deu coragem para o terceiro. Entranhava-se. Converti-me. Por sorte o líder religioso  não me deixou agarrar-me à garrafa santificada e já não havia mais galinhas. Fui por isso obrigado a regressar a San Cristobal com o Karma tranquilo e em paz com o vaticano.

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    Jesus e os Zapatistas

    Como os evangelistas tanto pregavam nas rádios locais americanas também eu encontrei, finalmente, Jesus.

    www.emviagem.netJesus é filho de José e Maria e, de alguma forma, tem estado em toda a parte: está a dar a volta ao mundo. O pai não é carpinteiro, é pintor. Nasceu em Madrid e tem 33 anos. Jesus é ateu, o que compreendo: qualquer outra opção tornava-o passível de o chamarem de narcísico.

    Jesus, como o seu homónimo, é um tipo de esquerda. Não apenas em teoria mas já com um passado sindicalista e politicamente activo e empenhado. Mas Jesus foi também e por mais de uma vez peregrino a Santiago de Compostela, caminho que também eu já percorri e que nos uniu de imediato como irmãos.

    Conheci-o numa sala de cinema vazia onde ambos sentados em cadeiras de campismo assistimos a um documentário sobre a revolução Zapatista, um manifesto idealista que acordou o mundo a 1 de Janeiro de 2004. Tudo começou aqui, nas ruas da pequena cidade de San Cristobal de las Casas onde o colorido das ruas esconde o sangue que tem marcado uma das últimas revoluções do mundo, uma que muitos acreditam ainda não terminou.

    O documentário era demasiado forte e obrigatoriamente eu e Jesus tivemos que o discutir e digerir com umas cervejas (não tinham Gin). Dois dias depois decidimo-nos a cimentar o nosso conhecimento com a visita a uma das comunidades Zapatistas que permanecem nas montanhas cercanas.

    Muitos diriam que se tratava de uma ideia insensata e perigosa… mas afinal eu estava com Jesus e quando era miúdo, nas aulas de religião e moral, ensinaram-me que com Jesus se pode ir a toda a parte.

    Quando naquela manhã húmida e fria o “colectivo” nos abandonou na estrada junto ao caracol de Obentic  (Caracol é o nome que os Zapatistas dão às suas comunidades) caminhei confiante para o portão de ferro guardado por índios armados e encapuçados.

    Calmamente explicámos ao que vínhamos. Pediram-nos os passaportes. Aguardamos no frio da manhã até que nos pedem para entrar e somos levados a uma pequena casa de madeira onde dois homens, segurando os passaportes, nos fazem um pequeno questionário.

    Respondemos calma e pacificamente. Devolvem-nos os passaportes  e apresentam-nos um terceiro homem que nos lidera por uma estrada enlameada. A estrada desce ao vale e esta ladeada de casas de madeira pintadas com mensagens revolucionárias.  Numa dessas casas, a meio caminho, funciona a Junta da comunidade. Pedem-nos para aguardar. Quando finalmente somos convidados a entrar, estou numa sala com as paredes preenchidas com pinturas, memórias e fotografias da revolução Zapatista. As imagens de Che Guevara e do Comandante Marcos foram alguns dos detalhes que me chamaram a atenção antes de sermos sentados em bancos estratégicamente baixos.

    Numa mesa de madeira e em seu entorno obervam-nos cerca de 10 homens e mulheres encapuçados. Silêncio. O Impacto visual não podia ser mais intimidante. O líder, sentado ao centro da mesa, toma palavra. Passa-nos um papel em que nos pede que lhe deixemos o nome, nacionalidade, emprego e organização a que pertencemos. Preenchemos os dados pedidos sob olhares frios e atentos.

    No fim, enquanto entregamos o papel preenchido, sou eu quem toma a palavra. Jesus confessou-me depois que a situação lhe acordou memórias difíceis dos comunicados televisivos da ETA, terroristas que tanto têm ferido o coração dos nossos irmãos espanhóis.

    A mim parecia-me claro que o sucesso da situação passava pela tranquilidade. Evidenciar respeito sem subserviência e tentar quebrar cautelosamente o gelo conquistando alguma informalidade. Expliquei-lhes por isso porque ali estávamos, que vínhamos numa volta pelo mundo e ao tomarmos conhecimento de tudo o que ali se passara decidimos construir a nossa própria opinião. Contei-lhes como ao longo desta viagem me tinha cruzado com demasiados povos indígenas que são subjugados, explorados, ignorados e até eliminados por maiorias dominantes, que embora não acredite nas armas como solução para o que seja, as vitórias que conseguiram com o seu movimento são significativas e suficientes para me fazerem estar ali a querer conhecer os seus motivos e ambições.

    Enquanto falava  recorri sobretudo à simplicidade, lembrando-me a mim próprio que debaixo daquele aparato todos estavam homens e mulheres como eu, que aqueles capuzes eram também um sinal de medo e que escondiam cicatrizes que eu como um Ocidental protegido e privilegiado não tenho sequer o direito de imaginar.

    Pelo meio do discurso inclui duas ou três pontes para alguma empatia e informalidade, condição fundamental para conseguir uma conversa esclarecedora e produtiva. As pontes foram aceites e percorridas e pude escutar na primeira pessoa  os motivos que fazem um homem pegar numa arma e reclamar dignidade.

    No mundo não existe falta de gente ambiciosa. O Poder seduz e é o motor de muitos. Se é verdade que muitos o procuram associando-se aos já ricos e poderosos, outros buscam-no movendo massas desprotegidas e os sonhos dos pobres. Sinto por isso uma enorme dificuldade em avaliar a genuinidade, autenticidade, independência e até inocência de um líder, mas fascinam-me os homens comuns que acreditam numa causa e não baixam os braços pela mesma, consumindo toda uma vida ao que acreditam para os outros.

    Permaneço demasiado ignorante para ter conclusões sobre o que se passou e está a passar na revolução Zapatista com o povo indígena do México. Sigo por isso incapaz de tomar posições definitivas. Mas percebo que esta revolução não permaneceria se as injustiças que lhes dão motivo não fossem verdadeiras. Percebo que a desigualdade permanece irresoluta e de como a reacção violenta do Governo Federal acabou apenas por a alimentar e fortalecer.

    Naquela casa de madeira e no frio que acompanha a manhã na montanha escutei contarem-me na primeira pessoa como tudo começou, a ocupação da câmara municipal de San Cristobal ou a marcha até á Cidade do México. Contaram-me como quando as mulheres perceberam que a elas os soldados batiam com menos força que aos homens  e tomaram elas a linha da frente nos protestos contra a presença das tropas federais, que de facto acabaram por conseguir expulsar.

    Explicam-nos como gerem em autonomia a comunidade onde conseguiram estabelecer um primário sistema de saúde e de educação. No final, dão-nos autorização para visitar a comunidade. Apenas nos pedem para não fotografar nem pessoas nem viaturas. No entanto, com a informalidade conseguida e antes de sairmos arrisco-me a pedir-lhes uma fotografia da Junta. Os olhos sorriem-me confirmando o meu pressuposto original que detrás dos capuzes estão homens e mulheres como eu, como todos nós.

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    Depois da fotografia, foi com Jesus a meu lado que entrei  numa realidade diferente de todas as por mim conhecidas. Não que o desfavorecimento ou o carácter indígena sejam uma novidade nesta volta ao mundo. O que me surpreendeu foi a dignidade e orgulho que ali se respira.

    A comunidade é pobre, mas se as casas são de madeira e os tectos de chapa, as paredes estão cobertas de pinturas que nos lembram os sonhos e ideais mais bonitos e poderosos da Humanidade. Falam de Amor e Democracia, Dignidade e Igualdade, Saúde e Educação. Explicam e lembram com cores vivas os valores mais importantes e devolvem a esperança a um povo indígena que, subjugado por mais de cinco séculos, já tinha quase esquecido que até a terra lhes pertence.

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    A Beldade Mexicana

    Estou deitado no açúcar, Playa del Carmen, uma hora a sul de Cancun. Descobri, e comprovei, que aqui a praia não é feita de areia mas de açúcar. É por causa desse açúcar que as praias são tão brancas e o fundo do mar tão cristalino. É também por causa desse açúcar, que se agarra à pele dia e noite dentro, que muitos regressam e outros demoram em partir.

    Não estranhei por isso quando a beldade mexicana parou junto a mim interrompendo o seu jogging na praia. Sorriu-me com o azul do mar como cenário e chamou-me. O que fariam voçês ? Eu pensei “que se lixe a diabetes” e fui atrás da guloseima.

    Já dentro de água a conversinha foi suficientemente banal para ser promissora. Há sempre um bom motivo detrás de conversas que não interessam para nada. Afinal esta praia não é apenas o paraíso… mas o sétimo céu na primeira pessoa.

    Mais sorrisinhos. “Siegue-me…” - disse-me a beleza mexicana com uma piscadela de olho– “me gusta nadar sin roupa”.

    Foi exactamente aqui que devia ter dado a mim próprio uma injecção de insulina. Mas não. Palerma e fácil como sempre, trato de continuar a acreditar no paraíso e sigo para o mar alto, para bem longe do açúcar.

    E quando já estou bem longe, quase a chegar ao meu prémio, ao meu docinho do dia… eis que a beleza mexicana começa a nadar para traz com umas braçadas vigorosas de quem vai ganhar as olimpíadas.

    Ainda tentei fazer valer-me de algumas horas de natação no Inatel… mas nada feito. Quando estafado consegui por os pés na areia (acabou-se o açúcar) já não havia carteira, nem roupa, nem toalha, nem beleza mexicana. Só eu e a minha Sunga.

    Podia ter entrado em coma. Mas não. Esta praia permanece demasiado doce para me chatear. Quando nessa noite afogava o episódio, o Gin, amigo como sempre, recordava-me: “deixa lá João. Antes assim que na estação de metro dos olivais”.

     

    O Pescador

    Aguardando a chegada de novos cartões bancários de Lisboa, sou obrigado a parar esta viagem em Playa del Carmen na Riviera Maya. Sem os cartões estou resumido ao dinheiro que trago de reserva em efectivo e não me posso entreter de formas mais originais que nadar no mar  e derreter na praia.

    Todos os dias, ao pôr-do-sol dou um passeio pela quinta Avenida, que não é mais que uma rua pedestre que atravessa todo o povoado e onde se concentra a vida e animação deste paraíso hedonista.

    Regresso depois pelo silêncio da praia. É já noite quando me sento à conversa com o Gin num bar de praia que persiste noite dentro com velas acesas e dois ou três músicos cubanos.

    Nesse percurso nocturno encontro um dia um pescador que lança a linha da areia. Ao contrário de outros pescadores, não está sozinho. Sentada numa manta junto a ele está a sua mulher que o ajuda enquanto vigia duas crianças que por ali brincam.

    Parei perante aquela imagem. Gostei da simplicidade daquele gesto de família em comparação ao sofisticado desfile em que por vezes se converte a “avenida” que tinha acabado de percorrer. Embora pequena, Playa del Cramen distribui-se, para além de lojas de souvenirs e tiendas de tacos, entre Starbucks, lojas de marca e restaurantes de design. As suas ruas enchem-se de casais jovens americanos, gays de Miami, divorciadas nova iorquinas, milionários argentinos, yuppies mexicanos e famílias judias sul-americanas. Aqui não há arranha-céus como em Cancun, excursões ou grupos de estudantes embriagados. É apenas uma vila de férias mas com um certo bom gosto quase europeu.

    Por tudo isto, a imagem nocturna daquela família local na praia serena e quente fez-me parar. Não repudio nada do que vos descrevi, mas de alguma forma o conforto e sofisticação que me rodeiam nesta pausa forçada quase me adormeceram. Fui ter com eles.

    O homem mostrou-me o que já pescara. Perguntei-lhe se sempre pescava e respondeu-me que sempre que podia. Disse-lhe como me era bonito o facto de trazer a mulher e os putos e de se entreterem assim, de forma tão simples e essencial, em família.

    - No lo es entretenimiento señor. Es que tengo otro niño que no esta aqui e todos  tenemos de comer.

    E acordei.

     

    O Aniversário 

    Faz hoje um ano que foi o meu último dia de trabalho na empresa a que me dediquei nos cinco anos anteriores. Nesse dia trabalhei até tarde para deixar as coisas organizadas para quem me fosse substituir. Lembro-me que era quase meia-noite quando finalmente me juntava a alguns amigos mais próximos para jantarmos juntos, celebrar os meus 33 anos e uma nova e desconhecida etapa da minha vida. Nesse dia era-me totalmente insuspeito onde estaria hoje.

    Na verdade, à um mês atrás também era-me totalmente insuspeito onde estaria neste dia. Quando hoje, junto ao mar, parei para pensar, lembrei-me de quem entrou no meu gabinete para se despedir de mim e de quem não o fez. Lembro-me dos abraços a sério que me deram  e de como esses abraços me deram uma certeza que os cinco anos não tinham sido apenas reuniões, vendas, clientes  e  relatórios.

    Lembro-me que à um ano também parei para pensar, mas não foi junto ao mar nem com todo o tempo do mundo. Nesse dia foi sob um relógio, num gabinete encafuado onde até o ar está condicionado. Lembro-me que da janela conseguia ver um bocado de céu, um céu esperançosamente azul, livre e prometedor. Foi esse céu que me libertou e me trouxe até aqui.

    Hoje os amigos de sempre continuam presentes. Escrevem-me, acarinham-me, esperam-me. Os abraços que recebi no meu gabinete aguardam as re-edições que distinguem os amigos dos colegas. Mas em vez de reuniões, vendas, clientes e relatórios… a minha vida este ano foi Verdade.

    E a todos os que não são verdade, o céu esperançosamente azul substituiu por gente de carne e osso e sonhos que insistem em entrar de rompante na minha vida e me demonstrar que o mundo é ainda mais amplo que no dia anterior.

    No terraço do meu Hotel, onde passei esta semana de praia, juntam-se a mim os empregados mexicanos  e as suas namoradas. Está também um instrutor de mergulho australiano, um advogado Inglês e um actor argentino. Está ainda Shirley que acabou de escrever um livro para crianças e Adro, um escultor em Buenos Aires. Juntam-se ainda duas enfermeiras eslovenas que viajam por toda a América Central e um Peruano que dá aulas de salsa nos hotéis de Cancun. Os empregados do Hotel sugeriram e cederam o terraço. O resto são pessoas que conheci nos últimos dias e que se juntaram a mim nesta celebração que entendo não apenas do meu aniversário, não apenas de mim, mas da vida em si mesma.

    E na verdade, o que percebi que vale de facto ser celebrado, é que continuo sem saber onde vou passar o meu próximo aniversário e que o Céu continua azul e prometedor.

     

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