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Crónicas do Sul

  • Valentina de Cartagena

    Chama-se Valentina. Nasceu a 14 de Fevereiro, dia dos namorados. Ambos os factos são ilusões que lhe pagam para viver.

    Não gosta que lhe toquem as pernas, nem por acidente, porque diz ficar inquieta. Ontem tinha frio, mas esta noite tem muito calor. Explica-me que deve ser da praia, onde fez amor com o Sol todo o dia. É estudante, mas pede-me para lhe explicar onde fica a Europa. Sorri muito e, como gosta de dançar, mesmo quieta, abana os ombros compassadamente o que lhe agita os seios morenos e quase soltos. Escuto-a. Observo-a. É terna, com a doçura canela que só as negras sabem ter.

    Atenta, divertida, consegue ter os olhos mais brilhantes que o vestido que lhe desenha o corpo jovem e ansioso. Valentina podia vender o que seja, mas são bebidas, o corpo e ilusões, o que lhe paga o salário. Demasiado profissional, admiro a elasticidade com que se adapta aos meus argumentos e me faz pagar mais uma bebida, pagar mais uns momentos de sedução e atenção como se eu fosse o homem mais belo e interessante do mundo.

    Escuto-a. Observo-a .Fascina-me como com o corpo e as palavras me ensina que a sedução pode ser um jogo, não apenas um acidente. Demasiado profissional, Valentina ensina-me também que é inalcançável, que nunca a vou conhecer. Do alto da sua jovem beleza, ela oferece apenas aos homens a deliciosa oportunidade de se esquecerem nas suas próprias ilusões. Nada mais que isso, e isso basta-lhe para pagar as contas e manter-se bela.

    Deliciado mas cansado de não chegar à verdade, deixo Valentina e as suas prometidas ilusões. Talvez a sedução nunca seja um mero acidente mas, mesmo que se resuma a um jogo, que o jogo comece pelo acaso. Dormir com o inesperado e não apenas com meia dúzia de dólares. Defendo o acordar com um pouco de poesia, por anónima e erótica que seja.

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    O Padre Claver

    Os negros durante muito tempo não acreditavam que fosse branco. Convertido em lenda, o Padre Claver, nascido em Espanha, Jesuíta, afirmava-se “um escravo dos escravos”.

    - Um branco nunca nos teria amado tanto. – justificavam os negros.

    Missionário em Cartagena das Índias, a capital espanhola de todas as Américas, o padre acudia aos escravos que chegavam embarcados providenciando protecção, cuidados médicos e, obviamente, baptismos.

    Os escravos chegavam de todas as partes de Africa pelo que Claver  dispunha de uma dezenas de interpretes, escravos negros que aprenderam previamente o espanhol e foram por isso adquiridos pela companhia de Jesus. Um investimento caro mas incontornável para adquirir mais  almas negras.

    Mais de um terço dos escravos morriam na viagem e muitos chegavam moribundos. Ao lhes providenciar o baptismo às portas da morte, a Igreja acredita que Claver salvou milhares do destino os pecadores. Estima-se que terá convertido cerca de 300.000.

    Terá também salvo muitos dos sobreviventes das torturas e injustiças ao interceder por eles junto dos seus amos. Conta-se que a sua igreja tinha sempre as portas abertas para os que o conseguiam alcançar em busca de auxílio.

    Sabe-se que foi por duas vezes juiz da Inquisição na cidade de Cartagena, a mesma Instituição que condenou um outro Jesuíta (ainda não promovido a santo) que teve o atrevimento de explicar aos brancos do alto de um púlpito de Lima no Peru , que esbofetear um negro era pecado pior que esbofetear um Cristo : “A face de um Negro é a face viva de Deus”.

    O corpo do Padre Claver reside num Santuário na parte antiga de Cartagena. Representa abnegação, fé, dádiva aos outros. Alinhou sem dúvida pelos mais fracos, mas talvez de forma suficientemente correcta para permitir à Instituição em que trabalhou poder santifica-lo e assim contornar oportuna e localmente a sua participação num dos maiores crimes da humanidade.

    Fui verificar por curiosidade. A escravatura (abolida em Portugal em 1761) foi abolida na Colombia em 1821. O Padre Claver, falecido em 1654, foi beatificado em 1850, processo que assinala o início da promoção a Santo.

    Mas a verdade  é que os negros o amam e os colombianos se ajoelham aos seus pés. A  sua devoção silencia o meu pragmatismo. Acedo que foi um homem bom em tempos difíceis. Isso só por si, foi e continua a ser, digno de admiração.

    A Última Praia

    A última praia é sempre a melhor. Talvez por não ser possível seguir mais longe, ou a distância percorrida e os obstáculos ultrapassados nos garante que não vai chegar ninguém inoportuno e não desejado.

    Se chega alguém será apenas outra alma em busca da solidão, da solidão do mar. é por isso que gosto sempre da última praia: É Minha. Costumo  a tomar por minha, apropriando-me de cada gota de oceano, cada pedra, cada grão de areia.

    Em Tayrona, no norte da Colombia, a última praia é nudista. É um pormenor relevante que esse facto não resulte de uma decisão legal mas apenas da conclusão óbvia dos que aqui conseguem chegar: que entre a selva e o mar azul nada da nossa civilização faz muito sentido.

    Com o silencio húmido da selva nas nossas costas e o retombar das ondas no olhar, apenas sobra espaço para o silêncio, para pensar em nada. Aqui não há lugar para tecidos ou cores artificiais. O silêncio na alma silencia qualquer sombra de perconceito, vergonha ou luxúria. Tudo o que esteja para além do nosso corpo está a mais, separa-nos do mar, da areia, do abraço da selva. Nu, posso diluir-me no absoluto.

     Quase sempre só, esta é mesmo a última Praia, longe de tudo, por pouco o princípio de todo um continente. Embora quase esquecida,  percebo que esta  é a última das últimas praias, como se a maré estivesse vazia e eu tivesse percorrido todas as que conheço, saltado todas as rochas, descido todas as ravinas para aqui chegar. Esta é a praia absoluta, a última, onde impera o silêncio, onde nunca chegará ninguém indesejado, onde sou apenas eu, areia, mar, entre o retombar das ondas e o abraço quente da selva.

    O Vulcão de Lodo

    Todos dizem que é um Vulcão. Que se sobe ao vulcão e depois se mergulha no lodo que nasce da sua cratera. Falam nas propriedades medicinais das lamas, dos miraculosos minerais que por contacto directo rejuvenescem a pele e devolvem anos á vida. Aconselham a fazer uma das afamadas massagens dentro do próprio vulcão e explicam que no final se tira a lama num balneário num lago circundante.

    Empacotado num autocarro repleto de ocidentais parto uma manhã a viver tão sonante experiência. Curiosamente, quando estacionamos, não há nenhum vulcão no horizonte. Nem ao longe.A guia aponta então um montículo de lama que nem 10 metros de altura tem. Olho para a mulher estupefacto mas decido submissamente a limitar-me a tirar as botas e seguir em fila indiana pelas escadas de madeiraque sobem ao “vulcão”. Lá em cima perco a palavra.

    Numa poça de lodo amontoam-se vestígios de loiros e loiras empenhados em recuperar os tais anos de vida. Não deixei de me questionar para que os queriam… mas como eu próprio já perdi muitas vezes tempo na vida com  coisas estúpidas… saltei sem medos para a poça. Foi um erro. Suspensos pela densidade da lama, mas sem pé ou apoio que o corpo dos outros palermas, ficamos imobilizados e imersos, à mercê dos “massagistas” , uns manfias de boné que cobram por indesejadas festinhas nas costas. Depois de assegurada a gorjeta, ajudam-nos a sair e indicam o caminho para o lago. Como monstros de um filme barato tentamos caminhar sem escorregar na nossa própria lama. No lago, as mulheres e irmãs dos massagistas aguardam-nos com um sorriso sádico. Topei-as à distância e à cautela, disse aos loiros:

    - after you.

    Em troca das obrigatórias gorjetas as mulheres empenham-se, depois de arrastar os loiros para o lago, em esfregar cada milímetros de lama das suas carnes.  Num estilo que classificaria de escandinavo, lançam-se aos calções de banho dos loiros que depois aguardam timidamente sentados no lago com apenas a cabeça de fora. Quanto mais tímidos os loiros, mais lenta e árdua parece ser a tarefa da lavagem dos calções.

    Mais uma vez, embora não seja loiro, decidi-me  a ser pragmático. Já à muito tempo que não me dão um banhinho. Talvez por não ser tímido, a coisa até foi rápida.

    A meio da tarde já estava de volta a Cartagena e, divertido, convencia um australiano:

    - you have to go and climb the volcano !

     

    Bogota

    A primeira vez que a cidade me ficou no ouvido foi quando desvendei a história de uma colombiana, jovem, alternativa, filha de emigrantes libaneses e que com apenas uma guitarra cantava musicas que faziam sentido.Nesse tempo da Colômbia apenas chegava cocaína e Bogotá parecia demasiado extrema para merecer lugar cimeiro na lista dos sítios onde ir.

    A miúda cresceu, foi descoberta pelos produtores de Miami e embora as letras tenham deixado de fazer sentido a dança do ventre tornou-se obrigatório no cv de muitas adolescentes. No mesmo intervalo, embora a cocaína seja cada vez mais comum e popular, o combate ao narcotráfico intensificou-se na Colombia. O governo nos últimos anos parece ter retomado a mão no país e Bogota e a Colombia são agora um destino inovador, suficientemente extremo mas seguro para merecer uma visita.

    O aeroporto de Bogotá é moderno e o serviço de táxis não podia ser mais seguro e organizado. Instalo-me num pequeno hotel numa zona nobre da cidade. Deito-me com curiosidade crescente pela cidade limpa e organizada que vislumbrei pela janela do táxi. Talvez seja uma cidade perigosa, mas nada que não se resolva com a técnica de uma filha de libaneses: jogo de cintura.

    Quando acordei, a cidade preenchia-se de uma luz fria, de uma ordem organizada, de ruas limpas, prédios altos e inumanos, mas sobre tudo isto, quase impossível numa tão grande metrópole, alegria pura e instantânea, uma enorme gentileza no trato entre as pessoas, gentileza que supera a de qualquer capital europeia.

    Quando acordei encontrei uma cidade ampla com uma historia violenta. Uma manhã fria e luminosa como uma manhã de Fevereiro em Lisboa, conduziu-me por um suceder de museus onde as cores de Botero e o brilho do ouro pré-colombiano decoram outros prazeres urbanos.

    Picasso, Lautrec, Monet,  preenchem as horas vazias entre Botero e outros pintores colombianos e uma visita ao centro cultural Garcia Marquez.

    Restaurantes de comidas rápidas servem sopas caseiras, travessas de carne suculenta, yuca frita e sumos naturais por poucos euros. Compensam assim a despesa inesperada mas recomendável nos restaurantes de design que abundam na zona norte da cidade.

    Depois de uma passagem nos bares de universitários onde a cerveja é barata e rapidamente se inicia uma conversa, a noite  terminou no bar do antigo Hilton, no topo de um edifício de 20 andares no centro da cidade. No meio da pista um DJ internacional debita musica electrónica e por decoração apenas a luz acesa das colinas circundantes que nos chegam pelas amplos vidros que nos separam do abismo.

    Antes de dormir e recordando uma miúda colombiana com muito jogo de cintura, mato a fome num dos pequenos restaurantes libaneses servem kebabs e outras delícias mediterrânicas até de madrugada. Serve-me uma miúda roliça, decotada, com uma pequena mão de Fátima de ouro entre os seios e mergulhada em suor. Trocamos dedos de conversa e no fim da ceia improvisada diz-me:

     – Ahora ya tienes un restaurante en Bogotá. Te esperamos ! -

    Despeço-me da minha Shakira e regresso às ruas escuras, perigosas, animadas e surpreendentes da cidade.

    Os seios adiados

    - Eu amo-me a mim mesma – explica Irene sobre um jantar dispendioso na cidade de Bogota.

    Assim se justifica numa solidão que dura para além da sua fertilidade feminina. É um caso pouco comum. Aqui, deste lado do mundo, talvez pelos piores motivos, as mulheres ainda não se entregaram à desalmada luta de se provarem dignas de “admiração”, ainda não ganharam a independência da mulher europeia, nem a sua solidão, nem a sua secura.

    Aqui ainda há mulheres que deixam as carreiras para se realizarem como fêmeas e como mães e fazem-no em sociedades bem memos protectoras que a nossa. Aqui como aí, é romântico quando um homem deixa uma carreira, um país, por amor.  Mas aqui, quando uma mulher toma igual decisão, as outras não a classificam de tonta e submissa.

    No mundo corporativo encontrei varias mulheres que se distraem  da sua essência  na obsessão pelo poder, pelo sucesso profissional. Não me refiro às mulheres que não podem ter filhos ou aquelas que não encontram o amor em tempo deste dar frutos: refiro-me a todas as outras.

    Não que masculinizem o corpo ou a aparência (os saltos continuam a ser altos), mas masculinizam as ambições. Esquecem os úteros e adiam os seios. E progridem perfumadas, cada vez mais bem vestidas, convencidas que a sua “igualdade” é converterem-se a um percurso de vida másculo e agressivo. Como se ser mãe, mãe a sério, não fosse posição social suficientemente digna.

    Os anos passam, a beleza não permanece, o útero esquecido desaparece, em vez das risadas dos miúdos apenas o toque do telemóvel as distrai do silêncio. Por fim,  a quem quer que queriam provar a igualdade, também as deixa.

    A casa, apesar de divinamente perfumada, fica vazia. A vida, as palavras e a boca, secas. Sobra-lhes tempo para mais sucesso profissional.

    Claro que há mulheres que conseguem ser mães e profissionais e sobretudo convencer toda a gente que o fazem com sucesso inexcedível. Mas a maioria não sobram tais imensas qualidades. E se de facto e incorrectamente a sociedade ainda obriga as mulheres a escolher entre um filho e uma promoção, espanta-me que tantas ainda abdiquem assim tão ignorantemente do seu maior privilégio.

    As ruas da América do Sul, ao contrário dos corredores europeus, ainda estão cheias de mães. Irene já não pode ser mãe. Ama-se a si própria. É um caso raro de sucesso feminino na sociedade continental. Talvez procure com o inconsciente a minha aprovação ocidental ao seu estilo de vida quase cinematográfico.

    Consegue a minha amizade e empatia. Consegue até uma não assumida solidariedade com a sua solidão. Mas a aprovação,  essa terá de procurar junto de mulheres secas e europeias, quase cinematográficas, cujos perfumes disfarçam os seios estupida e intencionalmente adiados.

     

    Pablo Escobar

    “Pablo Escobar” não é um nome desconhecido. Ele invadiu os noticiários da minha infância  e adolescência. É uma personagem global dos anos 80 e 90, um narcotraficante que chegou a controlar 80% da produção mundial de cocaína. Amado pelos pobres e odiado por todos os outros, preencheu as favelas de Medellin de campos de futebol e outras estruturas populistas que lhe conseguiram a espantosa eleição para o Senado da Colômbia.

    Assim como teve a ideia brilhante de contratar engenheiros da antiga URSS para construir submarinos e assim evadir os radares norte-americanos na entrega de carregamentos na Florida, assim como demonstrou o seu poder ao entrar numa esquadra de polícia e perguntar ao comandante qual era a recompensa pela sua captura (esquadra que abandonou calmamente decepcionado com o valor oferecido), assim como pagou à guerrilha para atacar e o tribunal nacional e queimar os arquivos dos processos contra si próprio, Pablo Escobar deciciu entrar na política e lutar em local próprio pela legalização da cocaína na Colômbia.

    Foi uma má jogada. Várias forças do país se insurgiram contra esta ousadia do narco mais famoso do país e em poucos meses o país formal entrou em estado de guerra declarada contra Pablo Escobar. Sucederam-se assassinatos e atentados que sobretudo significaram a morte de muita gente inocente.

    A história dessa guerra é composta de inúmeras episódios fascinantes mas sobretudo cruéis. Ainda hoje, por toda a cidade de Medellin, se encontram os edifícios grandiosos construídos por Pablo Escobar, todos imaculadamente brancos como símbolo do poder da cocaína. Uns foram a sua residência. Outros escritórios de onde comandava as suas empresas. Todos os arquitectos e engenheiros, toda a mão de obra foi milionáriamente paga. Todos foram em seguida assassinados para não revelar os segredos dos edifícios que se erguem nas zonas mais nobres da cidade e que exibem entre a sua altivez branca, as cicatrizes dos inúmeros atentados contra Pablo Escobar.

    Com o apoio dos americanos e uma força de mil homens criada apenas e exclusivamente para a sua captura, Escobar foi finalmente encontrado pelo governo colombiano. Dizem que se suicidou quando se viu cercado. É dele a frase: “ antes uma tumba na Colômbia que um cárcer nos Estados Unidos”.

    Mesmo depois de morto, teve poder suficiente para ser enterrado em lugar de destaque no melhor cemitério de Medellin, a cidade onde começou a sua carreira a roubar peças de automóveis depois de ser expulso da escola por copiar o original de um exame de química e vender as perguntas aos colegas.

    A sua tumba, embora alguns acreditem que ele ainda vive, é, depois de Evita Péron, a mais visitada na América Latina. No seu funeral o povo quebrou as janelas da Igreija e foram eles que agarraram o seu caixão  e o enterraram por mão própria. Este que foi um dos homens mais ricos do mundo, distribuiu muito pelos mais pobres da cidade, pobres como ele nasceu e que ainda hoje o relembram. Nunca um assasino foi tão invulgar e consistentemente amado.

    Um Novo Destino

    Conheci-a no novo teleférico que liga o centro da cidade ao topo de uma das favelas da cidade. O teleférico é um projecto inovador que pretende quebrar o isolamento geográfico e social das favelas de Medellin. Pelo sucesso conseguido, será copiado em outras cidades do mundo, incluindo o Rio de Janeiro.

    A vista é única: navegamos não sobre montanha  mas sobre a pobreza. Daqui de cima os mitos quebram-se. As velhas que estendem roupa na varanda, os miúdos que brincam na rua, os casais que namoram e os rapazes que jogam futebol entre lata e tijolo cru, todos quebram mitos e nos chamam a descer à realidade.

    Conheci-a no teleférico porque lhe comentei o que via. Com gentileza, alegria e curiosidade, envolveu-me numa conversa animada e contou-me ao que vinha. Ia á Biblioteca. Chamava-se Lorena e a filha de Lorena tinha um trabalho da escola para o fim-de-semana sobre a nova Biblioteca da favela.

    Como Lorena queria ir de viagem com a filha no sábado, resolveu aproveitar a manhã livre do trabalho para fazer ela o trabalho e poderem ir as duas de viagem. Lorena não gosta da Internet e resolveu responder ao questionário dado pela professora da filha à maneira antiga, com caneta, bloco de notas, e muitas perguntas na primeira pessoa. “ Uma mãe e Pêras ! ” tentei eu traduzir, sem sucesso, em espanhol. 

    Curioso, pergunto-lhe se me posso juntar a ela e: “Claro que si! “ respondeu-me alegremente.

    O edifício da Biblioteca é estonteante. São três enormes “Rochas” envidraçadas que se erguem num testemunho de modernismo no topo do morro e entre as casas mais pobres da cidade. Uma das rochas é a chamada rocha da sabedoria e consiste num enorme auditório forrado a tecnologia oferecida pelo Rei de Espanha. A segunda “Rocha” chama-se investigação e são vários pisos de salas de livros e computadores. A terceira “Rocha” chama-se Comunidade e além de uma sala de exposições, ludoteca e serviços administrativos oferece salas de reuniões para as actividades da comunidade.

    Todos os espaços e serviços da Biblioteca são gratuitos e podem ser requeridos pela comunidade desde que os objectivos não sejam nem políticos nem religiosos. Á semelhança do nosso programa Magalhães, na cidade o alcaide instituiu um programa que pretende que todas as crianças tenham um pequeno computador portátil e saibam utilizar a internet. Na favela este projecto está sob responsabilidade da Biblioteca.

    Outro projecto interessante coordenado a partir da Biblioteca são as chamadas “mães comunitárias”, mulheres mais velhas e referenciadas que recebem um subsídio para cuidar dos filhos dos casais mais jovens e ocupados do bairro e que pela pobreza não podem aceder a a um infantário.

    Mas o mais fantástico foi descobrir ao lado de Lorena, que esta Biblioteca não é única. Foram construídas várias, sempre em locais “difíceis”. Lorena, como a maioria dos colombianos, nunca saiu da Colombia. Na verdade, até à pouco tempo, não podia sequer viajar no seu próprio país. Era impossível ir de Medellin a Bogotá por terra devido aos ataques das guerrilhas. Nos últimos 10 anos, estes grupos armados sequestraram mais de 23.000 pessoas. Por isso Lorena não quer perder a oportunidade de um fim-de-semana com a filha. Por isso Lorena não sabe nem imagina o profundo exemplo de civilização e humanismo que estas Bibliotecas representam. Transmito-lhe toda a admiração com o que acabo de aprender com o seu povo e recebo em troca mais alegria, pura e autêntica, uma alegria livre de orgulho ou humildade

    Lorena tem de descer e regressar ao trabalho. Eu fico mais umas horas entre a lata e o tijolo cru a tentar conhecer melhor este povo. Não me sinto inseguro. O teleférico traz outros abastados  e a biblioteca movimenta suficientes estudantes para que o sentimento de insegurança que nasce da visibilidade de extrema pobreza   possa prevalecer.

    As três rochas erguem-se entre essa pobreza e afirmam a irreverência da Colômbia perante o seu destino. Projectam-se no céu como no futuro, e mesmo sem abrir um livro ensinam-nos o que é ter o poder e verdadeiramente amar o seu país.

     

    Letícia

    - Gosto de Fronteiras – comentei uma vez num jantar. Olharam-me como se fosse uma idiossincrasia. Ao  me aperceber que não me entendiam decidi partilhar  a minha definição de fronteira: - não me refiro a linhas no mapa, mas a fronteiras de mim mesmo, sítios onde me sinto no meu limite, no limite de tudo o que conheci antes.

    Leticia, além de uma fronteira real, é um desses limites.  Aqui, junto ao Amazonas,  termina a Colômbia e e começa de um lado o Brasil e do outro o Peru. É fácil chegar aos três países em botes que os ligam cruzando o maior rio do mundo. Em nenhuma das pequenas cidades, (Leticia no Brasil, Santa Rosa no Peru e Tabatinga no Brasil) se exige o passaporte. Aliás, em todas elas é necessário procurar as autoridades para conseguir o carimbo de saída ou entrada que permite seguir caminho em qualquer dos três países.

    Todos fazem questão de garantir que ninguém segue para o resto do seu território sem estar devidamente validado, fiscalizam  barcos e bagagens para evitar o contrabando, mas não entres estas três pequenas cidades que assim constituem uma comunidade única. O motivo nasce do extremo isolamento de todas elas. Esquecidas por séculos pelas respectivas metrópoles, que as apagavam do mapa das prioridade e se atrasavam no abastecimento de medicamentos e combustível, desde sempre que os respectivos habitantes aqui desterrados aprenderam a valer-se entre si.

    Dizem que a cidade foi criada por Portugueses que aqui naufragaram em expedição não documentada. Dizem que se chamava Santo António por causa da imagem do Santo aqui descoberto anos depois entre os restos do Navio. Mas a cidade deve o seu nome  ao facto simples e bonito do fundador oficial (1867) estar enamorado de uma mulher que assim se chamava: Letícia.

    Para chegar a Letícia vindo do resto da Colômbia é necessário voar. São mais de duas horas quase sempre sobre uma densa e intrigante selva que domina todos os horizontes do avião. A cidade é obviamente pequena, mas não desértica ou estagnada. As gentes são simpáticas e o calor húmido aumenta ainda mais a expectativa de explorar o maior rio do mundo e de nos embrenharmos na selva amazónica. Percorro-a com prazer intrínseca alegria,  saboreando os novos sabores e cores que, de mansinho, entre cores e sabores comuns, me estimulam o prazer da  antecipação.

    Ao final do dia, na margem que a separa do Amazonas, quando o sol, o céu e o rio, se incendiaram de uma vez , a Amazónia  apoderou-se do meu tempo. A ela ia dedicar os próximos tempos emviagem com a emoção e energia de estar em uma das fronteiras de mim mesmo.

     

     

    O Frade Rebelde

    - Virgem e mártir do desejo ! – assim de define o frade rebelde. Hector chegou à amazónia à 20 anos. Franciscano, missionário, trabalha ainda com as comunidades indígenas. É director de uma escola local e está envolvido em vários projectos das localidades circundantes. Mas já não é frade.  Por motivos que não me cabe a mim perguntar-lhe, abandonou o sacerdócio, mas de forma evidente, nem a fé nem os valores que guiam os seus dias.

    Agora vive de algumas cabanas que aluga nas margens do amazonas. Entre os visitantes que se renderam à hospitalidade e excentricidade do frade rebelde estão bispos, a infanta Cristina de Espanha, a mulher de Uribe (presidente da Colômbia), e meia dúzia de viajantes como eu que tiveram a sorte de ouvir falar das cabanas do frade e se fizeram ao caminho pela selva para o encontrar.

    Parece que sou o primeiro português a chegar aqui, facto que o frade celebra e me obriga a assinalar no livro de honra das cananas. Como insisto em o chamar de frade (apesar de não exercer) ele insiste em me chamar doutor (apesar de também eu não exercer). Com o frade mora um crocodilo, dois macacos, alguns cães e dois ou três papagaios gigantes que quando ele os chama saiem da selva e aterram nos seus braços.

    Na cozinha de madeira, há sempre água fresca e café forte acabado de preparar. O alojamento não inclui refeições mas a cozinha está sempre aberta e a dispensa cheia para que os hóspedes possam cozinhar o seu almoço e jantar. Quando um dia regressei da pesca com as minhas primeiras piranhas, o frade rebelde tomou o assunto em mãos e cozinhou ele próprio um caldo de chorar por mais.

    - este é um prato típico de aqui - explicou-me enquanto  misturava farelo no caldo para lhe dar mais consistência.

    Perto da margem do rio, o frade construiu uma torre de vigia de onde se observa em plena paz as cores do entardecer na amazónia. Já noite, servem-me uma bebida alcoólica local feita  da seiva de árvores desconhecidas e a conversa percorre assuntos, segredos e lendas novas que a selva e o rio parecem esconder em cada folha e em cada gota de água. Percebo que posso viver aqui anos seguidos e aprender algo novo todos os dias. Quando chega o dia, só consigo partir prometendo a mim próprio que regresso.

    Acordo na manhã do último dia com a constante alegria do Frade que assegura que assegura em voz alta que os indígenas que lhe cuidam as cabanas se organizam antes de ele partir a pé para uma das escolas que dirige. Quando me vê, dispara:

    - Buenos dias Doutor ! – e pára tudo para me servir mais uma chávena de café delicioso, forte e único. Agradeço-lhe com a sensação de mãos vazias com que me despedi já de algumas pessoas nesta volta pelo mundo, pessoas que me oferecem esperança em todos nós. Agradeço-lhe a hospitalidade fraterna que começou no segundo em que cruzei a sua porta e exclamou, sem me conhecer ou saber da minha vinda: “ estava a ver que não chegavas !” 

     

    Pela Selva

    Estava prestes a embarcar para Leticia quando a conheci a beber uma cerveja gelada com o namorado. Fazia tempo para partir com um Indio para uma caminhada pela Selva amazónica. Colombiana, alegre, extrovertida, diz-me: “vem connosco !”

    Altero os planos e parto com eles, guiados por Pedro, um Indio Ticuno que nos vai conduzir pela Selva algumas horas. Não é uma caminhada fácil apesar de ser época seca. Durante as chuvas o Amazonas  inunda e a selva converte-se num pântano que é muito mais difícil, senão impossível  percorrer. Pedro sabe de cada detalhe. Calmo, pequeno, ágil, explica as curiosidades dos mais pequenos insectos às arvores mais gigantescas. Obriga-nos a esfregar as mãos com terra de um formigueiro alegando que isso impede que outros insectos nos piquem. Golpeia-nos os braços e as pernas com uma cana que impede de sermos mordidos por cobras venenosas. Abre frutos cujo suco usa para nos pintar a cara com símbolos que nos protegerão no caminho e obriga-nos a abraçar a árvores mais energética da selva, aquela que mais louvor recebe da sua tribo e que surgiu quando uma mulher excessivamente bela, por ser convencida e pretensiosa, os deuses converteram, por inveja ou por justiça, para sempre em árvore.

    Terminámos a caminhada numa bonita laguna imersa na selva. Não dava para nadar: ali, naquele aparente paraíso, reinam as Anacondas. Rodeados do desconhecido é fácil perceber que a selva mata. A selva não perdoa. Exige uma humildade que já perdemos mas que faz sentido quando a reencontramos. Caminhamos mais uma horas e a selva devolve-nos íntegros ao Rio.

    Terminámos o dia com as mesmas cervejas geladas com que nos conhecemos, mas agora, manifestamente mais conscientes da nossa absoluta ignorância. E como sempre, desde o principio dos tempos e como a todos os homens que nos antecederam, seguimos chamados a regressar, viciados neste novo mundo que mata e abraça, que oferece generosamente  e esconde espantosos segredos com os quais nos atrai para a sua irretornável profundidade.

    Manual para pescar piranhas

    As piranhas não comem carne viva. Podem provar primeiro… mas se mexe e o sangue está bem oxigenado… a piranha não vai comer. Issso não quer dizer que quando está a lutar pela sua sobrevivência ou a estejam a chatear muito ela não seja literalmente lixada.

    Para a pescar é necessário carne de vaca ou outro animal sucolento. Cartilagem elas não gostam. Gostam sim de águas pouco profundas, pelo que não é necessário afastarmo-nos muito da margem. Depois basta colocar um pedaço de carne no anzol, mergulhar a cana no amazonas e esperar uns minutos. A linha dá logo sinal. Então à que sacar o bicho para o barco, mas com muito cuidado:  ela vem desesperada por vingança.

    Neste momento é fundamental partir-lhe ou extrair-lhe a mandíbula antes de a libertar do anzol e a soltar no fundo do barco. Um descuido e poder ser o adeus a um dedo (ou dois).

    Já conheci peixes mais simpáticos. Por muito empático que se tente ser com a mãe natureza, os dentinhos aguçados são um turn-of imediato. Isto de dia claro, porque as piranhas, como muita gente, ganham outra pinta à noite, já meio despidas, quase embriagadas, depois de umas ervas aromáticas e orgíacamente amontoadas umas nas outras.  Aí sim, marcham umas sobre as outras e por fim temos a certeza que vale a pena pescar e aturar mais algumas na manhã seguinte.

    Mas, aquelas aguçadas piranhas, ofereceram-me outro prazer urbanamente desconhecido: conseguir do Amazonas o meu próprio jantar. Insubstituível.

    O Barco

    O barco que subia o Amazonas era pesado e lento. Pintado de um verde alegre para disfarçar a idade do ferro, vai parando em todas as comunidades e sempre que alguém, no meio do nada, lhe faz sinal da margem que quer subir a bordo.

    Encosta carregando famílias, sacos das colheitas que semeiam uma vez por ano quando o rio está baixo, caixas de peixe, galos e galinhas, porcos e outros animais vivos.

    Todo o piso inferior é destinado ao transporte de carga. O do meio e o topo do barco são para passageiros que aí prendem as suas hamacas e aí vivem enquanto dura a viagem. Existem algumas poucas cabines, como a que aluguei para mim, que consistem em uma cama com um colchão de 3 mm de espessura e uma lâmpada. É tudo. Separados do exterior por uma porta que não são mais que ripas de madeira alinhada, as cabinas oferecem alguma privacidade e o privilégio de dormir na horizontal. Escusdo será referir que tudo na cabine, expto a lâmpada, também foi pintado com o mesmo verde alegre.

    Na popa do navio estão as casas de banho, cubículos (verdes…) e uma torneira no topo que debita água amazónica que serve de duche e autoclismo ao mesmo tempo. No piso médio uma cozinha básica mas ampla e limpa, separada dos passageiros por uma grade (obviamente verde), é onde três tripulantes preparam as refeições que são distribuídas depois em pequenos pratos de papel. A comida era pouca mas saborosa.

    A um canto uma pequena arca frigorífica carrega “gaseosas”, refrescos que são vendidos pela que acredito ser a tripulante mais velha do mundo, uma senhora que nos seus 80 anos lucra com o monopólio do único luxo a bordo (as bebidas não estão incluídas no preço da passagem). Talvez por isso, e graças a Deus, a velha não se veste de verde.

    A fauna a bordo equipara-se à diversidade da amazónia nas nossas margens. O termo fauna pode parecer desrespeitoso,  mas devo em primeiro lugar  dizer-vos que me incluo no mesmo  e segundo, atendendo a que o capitão preferia o termo “gado”, até acho que estou a ser simpático.

    Para garantir uma cabine fui dos primeiros a chegar. Para evitar mal entendidos aguardei pelo capitão para negociar o preço da passagem. Enquanto esperava observava os outros passageiros que chegavam e a atarefada tripulação.

    Duas eram prostitutas que “residem” no barco e ali ganham a sua vida. O resto contrabandistas que negoceiam todo o tipo de mercadorias entre o Peru, o Brasil e a Colombia. O capitão, a quem chamam “patrón” , não aparecia. Esperei duas horas já um pouco enfadado e tomando consciência das péssimas condições do barco. Nesse intervalo roubaram parte da comida que levava à precaução para os próximos dias de viagem pois tinham-me alertado em terra que a bordo não se comia muito. Ao aperceber-me do roubo irrito-me e penso mandar aquilo tudo à fava. Mas era demasiado tarde: nessas duas horas, enquanto esperava, tinha-me entretido a observar os trabalhos no barco, conversado com os carregadores e analizado os contrabandistas.  Já estava demasiado seduzido pelo colorido humano e verde alegre do barco. Ouvia-os falar de mim, o “gringo” entre eles, e de alguma forma irracional percebi que eu já fazia parte daquela viagem.

    Quando chegou o “patrón”, um jovem barrigudo mas com pinta de ser sério, e o vi empenhado em reorganizar o “gado” para me conseguir uma cabine decidi-me a ficar. Aquele seria o meu barco no Amazonas e eu o seu “gringo” nos próximos dias de viagem.

    Aqui, ao contrário de outros cruzeiros, não há nada para fazer. Mas duvido que não seja uma das viagens de barco mais fascinantes do mundo. Porquê ? Pelas pessoas que sentadas ao nosso lado, enquanto o rio vai passando, nos vão contando as suas histórias e os seus sonhos.

     Apresentam-nos as mulheres e os filhos, falam-nos da sua juventude, contam-nos como escapam às autoridades com o contrabando ou de quando foram apanhados pela polícia. Há quem simplesmente nos ofereça um cigarro e outros que nos contam lendas da selva, de quando os golfinhos se convertiam em humanos para seduzir as mulheres. Alertam-nos para as cobras gigantes que hipnotizam quem passa por perto ou de como o mundo nasceu de uma árvore cujo tronco é agora o rio em que navegamos.Há quem me conte as injustiças da vida, de como lhes pagam nada pelo arroz que cultivam e pelo peixe que pescam, dos sonhos que têm para o Peru, do amor pelo seu país. Há os que me perguntam pelo Cristiano Ronaldo, pelo preço da minha máquina fotográfica, pela minha viagem e os sítios que visitei. Há os que me explicam os nomes e tradições das varias ervas alucinogénicas que cada vez mais atraem estrangeiros à Amazónia.

    Todos me cuidam.  Sem o ter pedido ou mencionado o que seja, percebo que me reservam um prato de plástico e talheres de metal. Verificam a minha segurança. Quando chegamos finalmente a Iquitos no Peru não me deixam sair do barco com os restantes passageiros. – “ainda é noite” dizem-me. Explicam-me que se sair agora, sendo “gringo”,  vou ser roubado. Obrigam-me a ficar no barco e dormir até ser dia claro.Quando finalmente estou em terra firme o meu mundo cresceu o dobro. Trago um milhão de historias e os seus sorrisos na minha câmara.

    Lembro-me agora de uma das noites não conseguir dormir pelo ruído dos porcos, galos, música e gargalhadas dos passageiros que se entretinham a contar anedotas. Lembro-me  de me mexer na cama dura com o calor e de no meio daquele desconforto começar a escutar os suspiros femininos que chegavam da cabine ao lado. Lembro-me no meio de todo aquele desconforto de pensar que este era mesmo o meu barco, aquele que me levou pelo rio que era o tronco da arvore de onde nasceu o mundo, e comecei a sorrir com a alma e acabei às gargalhadas , entre os gemidos do porco no andar de baixo e os suspiros na cabine ao lado, e adormeci, como nunca, de bem com o mundo.


    German Dreams

    Tal como em Los Angeles, Iquitos está cheia de sonhadores, ocidentais que buscam aqui o paraíso perdido. O fascínio da Amazónia é difícil de ignorar, e alguns dos que por aqui passam simplesmente decidem ficar. Alguns por vários motivos lógicos mas, Marta, penso qeu apenas por falta de amor.

    Marta é alemã. Passou por Iquitos para uma reunião de hippies que acampados na selva aqui buscavam a iluminação até que uma epidemia de malária os dispersou. Muitos sem roupa, sem usar “químicos” e portanto sem usar repelente, cobriam-se de barro e dividiam o tempo entre o que plantavam entre as arvores, cerimónias de louvor à deusa terra e o consumo de ervas alucinogénicas. Quando a malária e afins os começou a matar, muitos partiram mas alguns ainda permanecem na cidade. Em todos os que conheci pressenti uma enorme necessidade espiritual que, por ignorância, os leva a percorrer caminhos ouço inteligentes e imaturos. Aos que pude recomendei a India onde podem aprender e integrar movimentos em demanda das mesmas verdades mas que o fazem à milhares de anos. (Aí, o conhecimento que encontrei é mais profundo e exigente de questionar). De todos os que conheci procurei entender o que pude, mas foi Marta quem se revelou mais inesquecível.

    Marta odeia a Alemanha. Quer viver aqui, na Amazónia. Com uma organização e determinação germânica contratou advogado e mesmo falando pouco espanhol partiu em busca de uns hectares de selva que pudesse comprar. A busca já terminou e a compra está prestes a ser assinada. Planeia produzir alimentos orgânicos e estudou autodidacticamente a maneira de enriquecer o solo que na selva é bastante pobre para  a agricultura.

    Já escolheu o barco que vai comprar que será de fibra (as canoas não chegam para transportar muita coisa). Planeia construir uma enorme vedação em arame farpado em volta do seu pedaço de selva:

    -  Os índios roubam tudo. Se há frutos no topo de uma arvore eles sobem e levam-nos como se fosse tudo deles.

    A vedação vai incluir um sensor que detecta movimento e que ligado a um gravador simula sons de fantasmas e demónios

    - Eles são supersticiosos. Com o som da gravação não se aproximam

    O tecto da casa vai ser em metal porque o processo tradicional de produção de ramas para os telhados não é muito ecológico. Vai ter cães e vigilantes.

    - A mão de obra aqui é muito barata (2 a 3 euros por dia). Nunca lhes pagues mais – recomenda-me - e nunca lhes dês nada !No máximo troca. Os indígenas se lhes dás um dedo pedem-te um braço ! –

    Escutava tudo aquilo e todas as suas recomendações pensando como explicar-lhe que aquela terra, mesmo paga, não lhe pertencia, quando me surpreendeu:

    -Sabes,s e eu tiver um filho nascido no Peru tenho direito a morar aui e não me podem expulsar. Escuso de ter de renovar o visto cada 6 meses.

    - E tens Pai para o miúdo ?

    - Ainda não, mas não penso casar-me. Eu cresci sem Pai e acho que não é necessário. Vou recorrer à inseminação artificial, mas não aqui. Não quero um filho latino. Talvez regresse à Alemanha.

    Não encontrei forma de lhe explicar que esta não é a sua terra., que a selva não se veda em arame farpado e que as suas palavras e projecto nos envergonham a todos nós europeus. Também não encontrei forma de explicar ao holandês que planeava passar semanas na selva  a explicar aos indígenas como salvar a Amazónia e respeitar o ambiente com o seu espanhol arcaico e arrogante o ridículo a que o resume as suas próprias palavras.

    Mas, apesar destes e outros projectos absurdos avançarem à força do poder económico do euro, apesar da minha incapacidade em elucidar Marta, saí de Iquitos tranquilo. Contaram-me no jantar do dia anterior a historia da norueguesa que comprou um hectar de selva e começou a aplicar métodos “mais  ecológicos” de cultivo. Parece que a senhora, caridosa, tentava  ainda  dar aulas de inglês às crianças da aldeia mais perto, crianças cujo problema mais imediato é não saberem castelhano o que as impede de prosseguir os estudos no seu país. Ausentou-se um fim-de-semana e os nativos, em jeito de agradecimento, queimaram-lhe a “quinta”.

    Dizem que foi para a ajudar. Aqui o fazem desde sempre em pedaços de selva que vão rodando todos os anos permitindo à selva regenerar-se.Dizem que  a viam cheia de trabalhos e invenções para plantar pedacinhos de terra e que foi  apenas para retribuir as aulas de Inglês. Eu acredito que foi outra sabedoria, uma que insistimos em não reconhecer.

    A Marta apenas desejo um pouco de amor. Talvez assim ela compreenda, se de facto quer viver aqui,qual é o seu papel e qual poderá ser o seu contributo. Se não, depois de tanto esforço vai acordar um dia exactamente como vivemos na Europa: cúmplices do mal dos pobres, emocionalmente só, isolada com os seus fantasmas e rodeada de enormes barreiras.

     

    Macho Pichu

    Decepção. Todos em silêncio contemplam o amanhecer húmido e frio. Dormimos apenas umas 4 horas, fizemos fila para a bilheteira ainda de madrugada, fila para o primeiro autocarro que sobe às ruínas às 6 da manhã. Lá em cima, sentados na colina apenas vemos nevoeiro, denso e cinzento, que teima em persistir nas primeiras horas da manhã.. Conversa-se em voz baixa imaginando a cidadela que se esconde detrás das nuvens que nos cobrem os pés.

    Alguns, em excursões organizadas com o tempo contado, desesperam. Eu sento-me a conversar com outros viajantes que acabei de conhecer e com quem, por isso mesmo, não falta assunto. Estamos determinados a a ver e experimentar a cidade misteriosa  que ainda espanta o mundo, seja daqui a umas horas, seja daqui a uma semana. Não nos rendemos.

    Construída pelos Incas, povo que tinha o Sol por divindade maior, acredito que o mesmo deve aparecer por aqui com ferquência. E assim foi. Com enorme lentidão e tenacidade, horas depois, o Sol começa a aparecer  e o seu calor a dissolver as nuvens que nos cobrem o olhar. É uma dissolução lenta, mística, quase encenada, mas depois submetem-se com esperada leveza mas inesperada rapidez. Evaporam-se e do branco nasce uma cidade de pedra no sítio mais impossível do mundo. Como um milagre: visível, físico, e mesmo assim irreal e difícil de acreditar.

    Aqui reúne-se a um dos lugares mais belos do planeta uma das obras mais sublimes da humanidade. Tal união é conseguida em única harmonia. A paisagem que nos invade o olhar é de tal forma suprema, tão plena de paz, que é até difícil levantarmo-nos e descer a visitar mais de perto as próprias ruínas da cidadela.

    Muito desta viagem não está planeado. Gosto de viajar com tempo livre para o destino acontecer. Mas quando parti de Alcochete  saí com cinco objectivos que decidi serem incontornáveis nesta viagem. Todos os outros foram negociáveis, obra do acaso, do imprevisto, da sorte e do infortúnio, do impulso e do possível. Mas cinco objectivos eu sabia que não regressaria a Portugal sem eles. Macho Pichu era o último. Há qualquer coisa nos olhos das pessoas quando me falavam de Macho Pichu que me alertava o instinto para a necessidade de vir aqui. Hoje percebi porquê.

    Ao contrário de outras sublimes obras da humanidade, Macho Pichu não se impões, não nos afasta, não nos domina pela majestade ou imponência. O mesmo em relação ao meio envolvente, que não é nem submetido, alterado, secundarizado  ou vencido: a cidadela nasce da própria montanha, como um ponto de união entre a beleza natural e a construída, gerando uma nova dimensão do belo que nos inclui.

    A constatação dessa generosidade faz com que ao a deixar-mos, ao regressar ao nível terreno, regressemos convertidos para sempre em habitantes desta cidade mítica.

     

    As Linhas em branco

    As linhas de Nasca são linhas em branco. Todos podem  tentar escrever nelas uma história, assinar a sua suposição e desprender a sua imaginação. Mas como estas linhas antes de eu nelas ter pegado e escrito estas palavras, permanecem em branco, sem palavras ou respostas, magneticamente opressivas no seu silêncio que se estende por quilómetros de Deserto.

    Com arte e rigor, figuras animais e geométricas gigantescas foram desenhadas num dos vales mais secos do mundo, raspando o solo, num enrodilhado indescritível que se calcula levou 8 séculos a construir. 8 séculos em que supostamente uma civilização, ainda hoje mal conhecida, se dedicou a tarefa magistral da sua construção.

    Sendo que a sua obra apenas pode ser observada do céu, pensar como o conseguiram é, redutoramente  de doidos. Experimentem fechar os olhos e desenhar num papel um circulo. Não vos estou a pedir sequer uma das elaboradas formas  que podem ver nas fotografias e que, curiosamente, algumas representam animais que simplesmente não existem na região.    

    Comparem o vosso resultado com um circulo perfeito e depois multipliquem por dezenas de quilómetros, centenas de anos e os milhares de braços necessários para desenhar estas linhas. Tudo de “olhos fechados” como quando desenharam o vosso circulo, porque tanto quanto sabemos o homem só levantou voo no século 20.

    Hoje é necessário contratar um lugar num pequeno avião para as poder ver. Lá em cima é impossível, por mais que se queira, não cair na redundância das perguntas: Porquê? Para Quê? Como ? e até… Quem ?.

    E se antes a curiosidade me encaminhou para estas linhas na minha volta pelo mundo, a passagem por aqui não resolveu nada. A constatação da magnanimidade da  obra não apazigua a vontade de saber, apenas a exacerba ao desconforto de não perceber nada.

    Depois de escutar todas as teorias e por resultado  nem uma das linhas ficar devidamente escritas tenho que me conformar a aceitar provavelmente a obra humana mais misteriosa de sempre, a única no mundo a que não conseguimos responder sequer a qualquer uma das mais básicas perguntas.

    Desta vez, quando me perguntarem pelas linhas de Nasca,  tenho que me resignar a responder em branco recorrendo a já descrita estratégia da minha amiga que trabalha numa agência de viagens:  “ … é Muito Bonito ! “

     

     

    Os Condores

     Todos os dias à mesma hora eles surgem no topo do Canyon circundando os que ali se deslocam a conhecê-los. Os Condores não voam, planam entre correntes de ar quentes e frias e assim percorrem quilómetros entre os Andes e o mar.

    São pássaros gigantescos, divinos para a cultura Inca juntamente com a Serpente e o Puma.

    Neste ponto da montanha, onde misteriosamente e ritualmente se reúnem diáriamente em trajectórias quase rasantes sobre a pequena multidão, alguém erigiu uma cruz, uma referência, creio, ao milagre da sua constante presença.  A horas certas, desdobram-se em coordenadas acrobacias antes de partirem e se dissolverem na extensão e profundidade no Canyon de Colca, um dos maiores do mundo.

    Partem poucos minutos depois da diária aparição.  Com o divino estatuto perante o homem já devidamente relembrado e justificado, partem,  deixando-nos a nós sólidos e presos ao chão da chamada cruz dos condores.

     

    Na Ilha

    Ás vezes basta  fazer amor para que esse amor fique para sempre. Mesmo que impossível, fica. Mesmo que fechado, suave, quase esquecido, fica para sempre. Ás vezes acontece.

    O tempo passa, vamos passando uns pelos outros e, se fazer amor se simplifica, dificulta-se que esse amor fique, que fique em apenas um  momento.

    Há anos atrás, em Sarajevo, pediram-me para apagar a luz  por vergonha das profundas e inúmeras cicatrizes que inesperadamente cobriam o corpo com que me deitei. Foi a percorrer e a beijar essas linhas imperfeitas, em horas proibidas e pouco iluminadas, que me enamorei. Esse é um dos amores que por impossível tenho carinhosamente guardado, fechado, suave, quase esquecido.

    Quando ela se aproximou , leve e brilhante, 10 anos mais jovem, percebi que se  enamorou de mim. Perseguia a minha presença e buscava-me com os olhos. Bebia as minhas palavras, as minhas histórias de viagem. O tempo ensina-nos a ler o corpo dos outros e o seu buscava-me, sedutora e incontrolavelmente.

    E eu, seduzido pela sua atenção, elogiado pela sua juventude, curioso pela sua energia, longe, com todos os argumentos destruídos pela sua inconsequente indiferença, na solidão de uma das ilhas do lago mais alto do mundo, deixei-a navegar no corpo que tanto desejava, que percorre-se as minhas ténues cicatrizes.

    E quando nos despedimos em caminhos distintos não me senti triste. Não senti nada. O Prazer partilhado não tinha passado de apenas isso. Guardei-o numa caixa vazia. Tudo nela era demasiado jovem, belo, e perfeito. Uma pele branca e lisa sem caminhos para percorrer.

    A Paz

    Desconheço como é possível eu gostar tanto de uma cidade que desconheço. Pobre mas bonita, desorganizada mas gentil, debruçada da montanha, íngreme mas plena de luz, La Paz recebe-me bem.

    Aqui sinto-me um pouco em outro tempo. Talvez  seja a intensidade quase cruel da luz, o ar leve conseguido com a altitude, que me fazem interpretar a simplicidade das ruas, das lojas, do vestuário dos transeuntes não como pobreza mas apenas isso mesmo: simplicidade. Ou talvez seja a alegria com que me ajudam na rua que torna inimaginável a carência inegável.

    Gosto de compreender, ler a s cidades, de forma independente da minha subjectividade individual. Desta vez não consigo. Talvez seja a tal intensidade da luz que me faz optimista. Ou talvez sejam as conversas a meio tom, entrecortadas de sorrisos moderados que escuto pela cidade o que me está a iludir.  Ou talvez o sol me tenha queimado a consciência da alma à privação, às casas inacabadas, à ferrugem dos carros. Talvez os quilómetros de estrada  me tenham, paradoxalmente, tornado o olhar, que vive afinal tão perto da alma,  simultaneamente cego  e livre à carência generalizada, à ausência dos confortos urbanos ocidentais. Temerosamente cego. Refrescantemente livre.

    E o que sobra ? O que vejo eu afinal ?

    A mim Próprio.

    Vejo a minha mãe  quando me levava no início das aulas às compras ao centro da cidade,  vejo-me a brincar com o meu irmão na varanda das casas, vejo o Joaquim a dar dentadas no nariz do Pai e vejo o meu Pai a sair engravatado e apressado do Banco para almoçar. Vejo os meus colegas da faculdade a estudar no café ou a namorar no jardim, e vejo vendedores com o sorriso que nasce da ilusão do sucesso. Vejo a minha avó a levar os netos ao cinema e vejo a minha irmã feliz por um estrangeiro reparar nos seus sapatos que bonitos, são de plástico, tal como os brinquedos são afinal pedras, a gravata está gasta e o cinema se transmutou num actor de rua mal vestido. E vejo-me a mim entre eles, com os olhos temerosamente cegos  e refrescantemente livres.

     

    A montanha de Santanás

    A cidade mais alta do mundo fica junto à montanha onde mora Santanás. Dizem da montanha que traga homens  vivos e, na verdade, aqui já morreram mais de 8 milhões. No seu interior correrem as veias de prata mais espessas de sempre, veias que criaram e alimentaram a cidade mais rica e populosa do colonialismo espanhol: Potosi na Bolívia.

    Dizem que um Rei Inca ao passar por ali e ser informado pelos campesinos da montanhas de prata  a foi visitar. Aí escutou dos deuses para não a tocar, que pertencia ao demónio das profundidades e que caberia a outros, a povos longíquos, a sua exploração. O Rei Inca obedeceu às normas dos seus deuses, mas estes tinham mentido. Se as minas de Potosi chegaram a oferecer a Espanha em apenas dez anos equivalente a  8 mil milhões de dólares, os 8 milhões de vidas que o Demo que nela habita exigiu em sacrifício são na totalidade indígenas.

    Após a descoberta da montanha de Prata, os espanhóis instituíram às populações dominadas nas suas colónias a obrigação de trabalharem 4 meses anuais nas minas  em regime de escravatura. Trabalhando em contínuo, sem sequer verem a luz do sol foram poucos os que sobreviveram. As minas de Potosi são um dos principais factores da redução da população andina após a invasão de Piçarro ( 1 século depois, apenas 10% da população ainda sobrevivia). Hoje os mineiros são pagos em média 5 euros por dia e a esperança média de vida é 35 anos.

    A prata já não segue de imediato para o estrangeiro, mas ainda se morre demasiado em Potosi. E se as Igreijas da cidade se enchem de fieis, os mesmos homens que as ferquentam, depois de atravessarem as portas da montanha, por vezes manchadas de sangue dos lamas sacrificados ao seu senhor, quando passam as portas para a obscuridade, todos homenageiam e oferendam ao Diabo, ao deus das  profundezas, ao senhor das suas vidas e fortuna e a quem chamam de Tio.

    Cada uma das dezenas de minas que consomem a montanha tem, em lugar de destaque, um “Tio” esculpido e adornado. Numa galeria principal, já explorada mas ainda de passagem obrigatória,o “Tio” intimida. Deus, anjos e arcanjos, ficaram à porta. Aqui, como em qualquer pintura medieval das profundidades, como na mitologia da maioria dos povos, é o Demo quem impera. 

    É ele quem fecunda a mãe terra para esta gerar o minério epor isso o representam cm um falo desproporcionado. Por isso não há mulheres na mina: tentam o diabo com a sua beleza que as fecunda a elas e não à terra. As que aqui tentaram trabalhar duraram pouco:

    - O diabo é guloso e quere-as para ele…

    E ele quem decide quem terá a sorte de encontrar o filão mais valioso, é ele quem decide quem continua a viver. Quando não devidamente referenciado pelo mineiro, quando caprichosamente entende que não lhe ofereceram o devido sacrifício, rouba a vida e a saúde aos que escavam a sua montanha.

    Assim, os mineiros, todos os dias, partilham os seus cigarros com o Tio, cigarros acesos que ele termina de fumar. Cobrem-lhe as mãos, os pés e o pénis com folhas de coca, as mesmas que mascam e lhes permitem seguir trabalhando horas de mais com comida de menos.

    Também eu masco folhas de coca antes de descer ao território de Santanás. Não me intimida esta nova fronteira, não só porque  a maldade não tem nada de novo na vida de ninguém, como me parece imoral que a realidade actual de milhares de homens durante as vidas curtas que os separam de mortes cancerígenas e dolorosas, não possa ser a minha por meia dúzia de horas. Avisam-me do perigo das explosões, gases tóxicos, derrocadas. Avisam-me para o calor e o frio excessivo, pó inalado, gases tóxicos, vagões carregados de minério que não têem travões e descarrilam com ferquência. Falam-me da exposição ao Asbestos, Amianto, Crómio, do esforço físico e da claustrofobia.

    Mas, como posso eu, tendo oportunidade, não descer a conhecer o Inferno ? Calço umas galochas emprestadas, cubro a cabeça com um capacete e uma lanterna, envolvo a máquina fotográfica cm um saco de plástico e atravesso a porta manchada de sangue.

    Visito em primeiro o Tio da mina que me recebe. Ofereço-lhe algumas das minhas folhas de coca. Não sou capaz de rezar ao demónio, mas como os mineiros que acompanho, demonstro-lhe que o respeito. Esta é, afinal, comprovadamente a sua montanha.

    A mina é tão difícil de visitar como esperava. Opressiva, claustrofóbica e labirintíca.Como quando desci à cratera do  Kawaw Ijen  (crónicas da Indonésia) trago cigarros, águas, e desta vez, folhas de coca para partilhar com os mineiros, conversar com eles e saber das suas vidas.

    Muitos explicam-me as suas ilusões. Não esperam para si a morte evidente e prematura.Explicam-me que não é tanto o pó mas a limentação: que se comerem bem e muito não vão morrer com os pulmões em sangue. Bebem álcool quase puro (67%) em garrafas de plástico que dizem “álcool potável”. Trabalham em turnos de 24 horas com uma hora de descanço entre cada 4. Não comem durante todo esse tempo: apenas mascam coca.

    - A coca tira a fome, tira a sede e dá ânimo.

    As minas inicialmente estatais foram privatizadas à algumas décadas atrás. Empresas provadas comparam, depuram, processam e vendem a prata. Mas a exploração das minas é feita de forma independente por grupos de mineiros, que se organizam em cooperativas que para pouco mais servem que regular o preço da prata. De assalariados passaram assim a aventureiros, e como ninguém fiscaliza o trabalho destas cooperativas, é evidente como os túneis retornaram a ser artesanais, menos seguros, e a exploração da mina novamente medieval, arriscada e inumana.

    Se lhes perguntarem, os mineiros quase todos, homens muito simples, preferem assim. São rápidos a contar histórias de um ou outro que ganhou milhares de dólares em apenas uma semana. E nessa ilusão vivem as suas curtas vidas conseguindo em média 100 dólares por mês. Na montanha de prata a vida vale muito pouco.

    O caminho de regresso à superfície é ainda mais difícil. Pesam já as horas debaixo do solo e o pó constante, o rastejar, o evitar os cabos de alta tensão não protegidos  ou o ritmo acelerado  imposto para escapar aos vagões carregados que percorrem os túneis estreitos e escuros quase descontroladamente. Toca o desesperante, e é um alívio estar novamente cá em cima, à superfície, com ar límpido  e sob o calor terno do sol.

    Aqui fora, olhando a cidade lá em baixo, não tenho dúvidas que a ambição e o desespero também se misturam em demasia e sem resolução. Percebo porquê:  O Inferno não tem nada de bonito e o próprio Tio deve subir por vezes a passear entre nós.

    O desenho de Deus

    E ao sétimo dia, dizem, descansou. Eu penso que não. Penso que ao sétimo dia enquanto contemplava a obra feita se debruçou pelos cantos mais esquecidos do mundo. Alguns demasiado longínquos, outros frios em excesso ou torridamente quentes. Aí parece ter-se entretido a desenhar vulcões, montanhas, planícies e planaltos intermináveis sem estar condicionado às interferências das suas recentes, mas já opinativas, criaturas.

    Desenhou sem contemplações como um miúdo a quem dão lápis e papel numa sala de espera. Deu largas à imaginação, excessiva e e inconsequentemente, cortando a direito, improvisando todas as combinações possíveis com as poucas cores que lhe sobravam.

    Quase ao final do dia, quando parou talvez já aborrecido por o Mundo não ter ainda começado, olhou para os seus desenhos e o futuro Salar de Yuni era sem dúvida dos mais bonitos. Vulcões, lagunas vermelhas e turquesa, gaisers, planícies sem fim, vermelhos, verde, cinzento e o céu mais límpido e azul de sempre. Mas faltava qualquer coisa… e juntou-lhe uma pitada de sal.

    Agora, aqui, o chão além de branco  tem sabor. Brilha por centenas de quilómetros. Quando chove desaparece convertendo-se num imenso espelho que duplica a beleza dos vulcões e das montanhas e nos faz escolher os passos entre as nuvens. Quando não chove, o sal absorve toda a humidade e ruído do mundo restando o absoluto silêncio  e uma imensidão imobilizante.

    O ar, assim seco, torna a paisagem incomparavelmente nítida , o céu mais azul e as cores mais límpidas. O traço de quem desenhou o que nos contorna é livre mas evidentemente seguro. Um traço suficientemente amplo para não sobrar dúvida do seu autor. Suficientemente seguro para  ser inquestionável que tudo o resto já tinha sido desenhado antes. Suficientemente livre para calar criaturas opinativas. Silêncio. 



    A Mesa

    A meu lado viaja um casal da minha idade, de uma nacionalidade invulgar mas irrelevante para esta crónica. Estudo-os. Não são viajantes mas tão pouco são turistas. Ela parece dirigi-los debaixo de um opressivo e penso que quase imposto silêncio. Curioso, procuro-os e janta-mos juntos.

    Ele debita-me lugares comuns de quem não pensa por cabeça própria e se convenceu ser original, contra o sistema, alternativo. Fuma charros, que ela esconde e transporta, para se sublinhar como “não alinhado”, e eu, que já me sentei à mesa com gente de hábitos bem menos alinhados mas que os pratica com uma naturalidade e prazer tranquilizantes  e até libertadores, sinto-me perante uma adolescência mal resolvida. Nada pode ser mais aborrecido.

    Há países que de tão pobres fazem com que viajar não seja uma opção mas um privilégio. Assim, a maioria dos seus  nacionais que viajam, não o fazem por amor ou necessidade mas por algo vazio e impenetrável: o orgulho.  

     Se, quando em trabalho, na rotina esmagadora das relações profissionais fui por vezes confrontado com a necessidade de conviver com adolescências mal resolvidas (superável mas desgastante) e com conversas vazias e plenas de lugares comuns (o pior de tudo),  desta vez não vi um motivo para permanecer naquela mesa.

    Ao contrário de antes, emviagem, todas as mesas são minhas. Todas as mesas de todos os restaurantes, tabernas e botequins, são minhas. São cada uma delas como a minha mesa em Alcochete: nelas só sento quem eu quero e, à minha mesa, não há lugar para adolescências mal resolvidas e horas seguidas de lugares comuns.

    E foi por isso que me levantei  e, educadamente,  sem uma desculpa ou argumento, caminhei para fora de um mundo que de tão claramente desfocado e intrinsecamente artificial é definitivamente dispensável. Esse foi o supremo sabor do jantar.

    Tango

    A mulher entrega-se. Completamente. O homem recebe-a. Pleno e Forte. A entrega é possível, é bonita, justifica-se sob a forma como é recebida.

    O Tango não é fácil. É uma arte. Um movimento de sensualidade absoluta, mas regrada. Respira-se autêntico e clandestino nos cantos dos bairros de Buenos Aires, a horas semanais e tardias. A cidade é uma imensa metrópole que permanece viva todas as madrugadas. O seu povo é claro, alto, belo e elegante. Parece que cantam ao invéz de falar quando atravessam as ruas tão sombrias e amplas como as de qualquer grande cidade europeia.

    De dia não me apaixonei pela cidade. De noite, viciei-me. Viciei-me numa rotina de bohémia, de uma sensualidade absoluta mas regrada. Uma rotina de carnes suaves e deliciosas servidas com vinhos fortes e doces. Viciei-me em candeeiros de cristal que iluminam cafés com empregados exemplares e paredes trabalhadas. Uma rotina de concertos e teatros e perfumes e reencontros com a elegância. Uma rotina de Tangos em chão de mármore, cantados por marialvas envelhecidos com voz de fumadores, dançados por casais pobres, bem vestidos, que usam à terça-feira o fato de Domingo. Uma rotina de noites animadas por todo o tipo de bares e discotecas, noites que terminam sempre com madrugadas cansadas e sonos tardios.

    Entre todas essas rotinas, a que na memoria permanece em deslumbramento, foi a forma repetida como a entrega se converte em poesia. Entre dois copos de Gin encontrei as palavras certas.Tango: sentimento claro e indefinívei, novo, domínio de um único povo. Possível de por todos ser compreendido mas não assimilado, acessível mas restrito, próprio dos outros, íntímo, algo que nos toca sem sequer permitir a ousadia de o sermos.

     

    Eva Peron

    Depois do musical da Broadway e do filme de Madona, Evita ficou ídolo mundial. Senão ídolo, pelo menos referência. A sua campa, onde residem os restos da (para alguns) santa mulher, é por isso obrigatória numa visita à cidade.

    Parti para o cemitério. Vou a pé. Pelo caminho encontro um grupo de monjes Hare Krishna sul americanos a cantar num dos jardins da cidade. Junto-me a eles alguns momentos partilhando da sua festa. Sou obrigado a recordar os meses desta viagem que passei na India, a reflectir como ela me converteu irremediavelmente disperso por muitos continentes.

    Prossigo para o cemitério. Nele apinham-se os mortos mais importantes, e ricos, e poderosos da cidade. Não há mapa das campas no cemitério. É preciso encontrar o jazigo da família de Evita, de Eva Duarte, a jovem alegadamente prostituta que soube amarinhar de perna firme para a historia da nossa civilização.

    Ando às voltas para encontrar a campa. Vejo um coveiro. Pergunto-lhe o caminho: “Sabes adonde está Evita ? ”

    Responde-me sério, apontando com o indicador e o olhar para o céu.

    Sou obrigado a especificar que busco os ossos da senhora e, uns minutos depois, lá chego. Não há muito espaço. Os turistas apinham-se por ali e buscam alternadamente a obrigatória fotografia. São todos estrangeiros. Noto no entanto, nas grades de ferro trabalhado, que estão suspensas algumas flores. São vermelhas e demasiado frescas para virem de longe.

    Sobram descamizados num país que não entende como o protagonismo económico do Chile e do Brasil não acontece aqui. Desobedecendo às famosas palavras, ainda há quem chore por Eva.

     

    O Fim dos Corcodilos

    São milhares. Reunidos pela fome, pela sede. Na época seca a água evapora-se, escorre do Pantanal para o centro da terra e o verde luxuriante ressurge como paraíso dos mosquitos. Os Jacarés amontoam-se em quantidade nos charcos que sobram. Alimentam-se do que podem, até dos irmãos moribundos. Não esitam em matar e devorar os mais fracos entre si.

    Cortando o capim e seguindo quem sabe, deparo-me com um desses charcos repleto de assassinos. Aguardam indolentemente que o tempo passe, que a chuca chegue, que as sucurus (cobras gigantescas) acordem ou as garças se  distraiam.

    Caçados consecutivamente pelos peões, nome dado por aqui aos caipiras que conduzem o gado pelo pantanal na época seca, o Jacaré ganhou medo ao homem, incosciente da nossa fragilidade.

    Já em mim, essa mesma consciência, bem marcada nos instintos mais primários, não me abandona.Sinto medo.Se estivesse sozinho aqui já estaria a correr bem depressa em qualquer direcção desde que a mesma fosse contrária. Mas não estou sozinho. Prossigo portanto, presseguindo o meu guia, o homem que expliquei ao medo possuir nas mãos a única sobrevivência possível. Caminho em silêncio, atento aos mínimos movimentos dos meus predadores que, receosos, se afastam de mim.

    A cada passo ultrapasso os limites de mim próprio. Talvez o medo seja apenas uma decisão. Talvez a história seja feita não pelo medo  mas pelos que a ele cedem inconscientes do seu próprio poder, cedendo caminho aos mais fracos mas mais temerários.

    Conhecer o nosso próprio poder. Ninguém o pode fazer por nós.

     

    O Princípio

    A vastidão do pantanal é interminável. Precorre-se de jipe, a pé, a cavalo. Nunca aprendi a andar a cavalo mas já montei uma ou duas vezes: em Mafra e na Islândia. Se me leram até aqui já imaginaram que isso não me impediu de saltar para cima de uma égua mansa. Lancei-me à descoberta do novo mundo.

    Ao meu lado, Marie, uma demasiado jovem francesa que se abandonou aos prazeres sexuais de um pintor brasileiro, demasiado velho, e que agora, meio perdida, deriva pelo continente brasileiro procurando reencontrar a loucura. Ao seu lado Anna, uma suíça demasiado só. Consumida por trabalho e uma vida seca que procura recuperar alguma juventude neste extremo do mundo.

    Foi na juventude que Anna aprendeu a montar a cavalo. A galope, na imensidão do Pantanal e plenitude do sol, acordam os sentidos que por aqui procura. Marie resolve segui-la, seduzida pela mesma loucura  que a abandonou. Pressigo-as, mas a égua, sentindo a minha indecisão e notando a inexperiência, acelera o trote mas não toma o galope. Até que Anna regressa e, avisando-me de um grito, dispara uma chicotada no flanco do animal que se lança implacavelmente a galope pelo capim. Claro que quase caí… mas o importante é que não. E até que o animal se decidisse a parar, penso que apenas pela monotonia da paisagem, invadiu-me a plena liberdade, a que busco sempre.

    Quandos nos reencontramos com os nossos cavalos suados, uniam-nos gargalhadas profundas. Partilhavamos alegria e um princípio.

     

    A última noite 

    Sebastian é mais um atraiçoado pelo amor. Como a maioria de nós ocidentais, esse é o seu único verdadeiro problema, o único ponto que ainda, apesar de jovem, não conseguiu controlar. As emoções humanas ainda escapam, para a maioria de nós, aos manuais.

    Inaptos na psicologia dos outros, inscientes da relevância da prespectiva, desfocados por ilusões e ambições, somos, todos os que sentem, uns subdesenvolvidos do coração. Acumulamos erros, glórias momentânias e ridículas, agendas cheias de números de telefone vazios, sonhos longíquos que avaramente não deixamos desfazerem-se, tentativas condenadas, actos condenáveis, solidão.

    Sebastian parece ser dos que sentem. A ex-namorada parece ser dos que não. A historia que ele me conta e que avalio ainda sem lhe ter amizade toca os limites da crueldade. Levo-o comigo para a noite do Rio de Janeiro, uma noite que apesar de cada vez mais dispendiosa permanece das melhores do mundo.

    Não sou de cá, não nasci neste Rio de vida, mas como acontece com nós portugueses em metade do mundo, também não sou apenas estrangeiro. Como em muitos outros sítios há os “indígenas”, os estrangeiros e, à parte e bem misturados, os Portugueses.

    Conduzo Sebastian à alegria do Samba, à doçura da Bossa Noova, à despreocupação do Carnaval que não termina. Terminamos na mesa e na cama de Taísa, mãe e ousada, jovem e bela, pobre, solta e pragmática, alta e magra, louca e verbal, nossa.

    Na véspera do meu regresso, na noite antes de chegar de novo a tudo o que me espera do meu lado do mundo, ultrapasso mais uma fronteira. Quando me deito de volta à minha cama, já iluminada pelo sol da manhã, tenho a pele ainda coberta de beijos.

    Tento descançar antes de partir finalmente de regresso com o que sobra de meses e meses emviagem.

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